Desmatamento ilegal coloca produtos brasileiros no centro de nova disputa comercial com os Estados Unidos

Desmatamento ilegal coloca produtos brasileiros no centro de nova disputa comercial com os Estados Unidos

A elevada proporção de desmatamento sem autorização na Amazônia passou a ser utilizada pelos Estados Unidos como argumento para elevar a pressão comercial sobre o Brasil. Em 15 de julho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros, com algumas exceções.

O desmatamento ilegal aparece entre as justificativas apresentadas pelo governo de Donald Trump. No entanto, não é o único motivo da medida. A investigação norte-americana também envolveu comércio digital, propriedade intelectual, tarifas brasileiras, combate à corrupção e acesso do etanol dos Estados Unidos ao mercado nacional. Portanto, seria impreciso afirmar que toda a taxação foi criada exclusivamente por causa da Amazônia.

O que representa o índice de 91%

Um levantamento do Instituto Centro de Vida apontou que 90,8% do desmatamento identificado na Amazônia entre agosto de 2023 e julho de 2024 ocorreu sem autorização ambiental conhecida. A floresta perdeu aproximadamente 6.288 quilômetros quadrados no período.

Esse dado exige uma distinção importante. O percentual não significa que 91% do desmatamento tenha sido provocado exclusivamente pela retirada comercial de madeira. Desmatamento é a eliminação completa da vegetação para mudança do uso da terra, frequentemente ligada à abertura de pastagens, ocupação irregular, grilagem e expansão agropecuária.

Estudos do MapBiomas mostram que mais de 90% das áreas desmatadas na Amazônia ao longo das últimas décadas foram posteriormente transformadas em pastagens. A madeira retirada pode entrar no mercado legal ou clandestino, mas muitas derrubadas têm como objetivo principal liberar a terra para outras atividades econômicas.

Isso não diminui a gravidade do problema. Uma derrubada sem autorização representa concorrência desleal porque seus responsáveis podem evitar despesas com licenciamento, manejo, reposição florestal, rastreabilidade, impostos e cumprimento de normas trabalhistas e ambientais.

Madeira ilegal pressiona os preços internacionais

Na avaliação apresentada pelo USTR, a exploração ilegal reduz artificialmente os custos de produção e coloca os fornecedores que cumprem as regras em desvantagem. O órgão norte-americano citou estudos segundo os quais a entrada de madeira ilegal no comércio mundial pode reduzir entre 7% e 16% o valor da madeira de origem legal, dependendo do produto.

Esse impacto alcança produtores dos Estados Unidos que trabalham com florestas manejadas, reflorestamento e cadeias produtivas fiscalizadas. O Serviço Florestal norte-americano reconhece a madeira como recurso renovável e material sustentável quando retirada de florestas administradas de maneira responsável.

Os Estados Unidos também aplicam a Lei Lacey, que proíbe a importação e o comércio de plantas e produtos florestais retirados ilegalmente no país de origem. Importadores de diversos produtos de madeira precisam declarar espécie, procedência e país de extração, podendo sofrer sanções caso comercializem material ilegal.

Diante disso, a posição norte-americana é que a falta de fiscalização efetiva no Brasil permite que produtos mais baratos, associados direta ou indiretamente ao desmatamento ilegal, disputem mercado com madeira produzida legalmente nos Estados Unidos.

Taxação pode atingir também quem trabalha legalmente

A tarifa generalizada cria outro problema: empresas brasileiras que possuem certificação, autorização ambiental, reflorestamento e rastreabilidade também podem ser prejudicadas. Ao atingir grande parte das exportações nacionais, a medida não separa automaticamente produtores legais de operadores envolvidos em crimes ambientais.

Com produtos brasileiros mais caros nos Estados Unidos, podem ocorrer perda de contratos, redução das exportações, fechamento de postos de trabalho e deslocamento das vendas para outros países. O consumidor norte-americano também pode enfrentar preços mais elevados quando não houver fornecedores domésticos capazes de substituir rapidamente as importações.

Por isso, restrições direcionadas às empresas e propriedades sem rastreabilidade podem ser mais eficientes ambientalmente do que uma tarifa ampla. Sistemas integrados de controle, identificação geográfica da origem, auditorias independentes, apreensão de madeira ilegal e punição dos compradores ajudariam a retirar os criminosos do mercado sem penalizar toda a economia brasileira.

A Amazônia como questão econômica

Durante muitos anos, o debate sobre a Amazônia ficou concentrado na preservação da biodiversidade e no controle das emissões de carbono. A recente decisão dos Estados Unidos mostra que a floresta também se tornou uma questão comercial.

Quando a madeira ilegal entra no mercado com preços reduzidos, ela prejudica tanto as florestas brasileiras quanto os produtores que cumprem a legislação no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países. O crime ambiental deixa de ser apenas um problema interno e passa a alterar a concorrência internacional.

O governo Lula precisa demonstrar fiscalização, rastreabilidade e punições capazes de reduzir o percentual de derrubadas sem autorização. O governo Trump, por sua vez, precisa provar que suas tarifas têm finalidade ambiental e comercial legítima, e não funcionam apenas como instrumento de pressão política contra Brasília.

A saída mais consistente não está em transformar a Amazônia em arma de uma guerra ideológica. Está em distinguir os produtores responsáveis dos criminosos, impedir que madeira ilegal seja “lavada” dentro das cadeias produtivas e garantir que nenhum país conquiste mercado destruindo florestas ou desrespeitando suas próprias leis.

Enquanto isso não ocorrer, a floresta continuará pagando o preço ambiental, os produtores legais arcarão com o prejuízo econômico e as relações entre Brasil e Estados Unidos permanecerão subordinadas a uma disputa política que ultrapassa a questão das tarifas.