Susto no mercado: proposta de Lara Resende para limitar a Selic acende alerta na economia brasileira

Susto no mercado: proposta de Lara Resende para limitar a Selic acende alerta na economia brasileira

O mercado financeiro brasileiro viveu um forte episódio de instabilidade no início de novembro de 2026 após a repercussão de uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir e depois limitar a taxa Selic. A simples possibilidade de que a ideia fosse avaliada pelo governo Lula bastou para derrubar a Bolsa, elevar o dólar e reacender o debate sobre credibilidade fiscal, autonomia do Banco Central e inflação.

A reação foi imediata. Na terça-feira, 3 de novembro, o Ibovespa fechou em queda de 1,40%, aos 165.569,36 pontos, seu menor nível desde janeiro, enquanto o dólar comercial subiu 0,74%, a R$ 5,4863 — maior fechamento do ano.

O que Lara Resende propõe

Lara Resende sustenta que os juros altos são o principal motor do crescimento da dívida pública brasileira e que uma queda controlada da Selic poderia reduzir despesas com juros sem exigir, em primeira instância, cortes de gastos ou aumento de impostos.

A proposta, publicada originalmente em 25 de setembro, prevê um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária, com os seguintes pontos centrais:valor.globo+1

  • Redução gradual da Selic, hoje em 13,75% ao ano, para cerca de 7,5% em 12 meses.
  • Criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por definir metas fiscais e monetárias para um horizonte de quatro a cinco anos.
  • Compromisso do Banco Central de manter a Selic, após a transição, entre 3% — a meta de inflação — e 5,5%, estimado como crescimento nominal potencial do PIB.
  • Uso eventual das reservas internacionais para conter uma desvalorização acentuada do real durante o período de ajuste.

Na prática, a proposta funcionaria como uma espécie de “tabelamento” ou faixa operacional para a taxa básica de juros, em vez de deixar sua trajetória predominantemente a cargo das decisões convencionais do Comitê de Política Monetária.

Por que o mercado se assustou

A reação negativa não decorreu apenas do objetivo de reduzir juros, algo normalmente bem-vindo para empresas, consumidores e o Tesouro Nacional. O problema, para analistas, está no método: forçar uma trajetória de queda sem um ajuste fiscal estrutural prévio poderia ser interpretado como interferência política na política monetária.

A principal preocupação é a chamada dominância fiscal — situação em que a necessidade de baratear o serviço da dívida passa a orientar as decisões do Banco Central, em vez do controle da inflação. Isso poderia desancorar expectativas, elevar os juros longos e aumentar a percepção de risco do Brasil.

Risco apontadoMecanismoConsequência temida
Perda de credibilidade monetáriaMercado passa a duvidar do compromisso do BC com a inflaçãoAlta dos juros de longo prazo e queda dos títulos públicos
Fuga de capitaisJuros menores reduzem o diferencial de retorno dos ativos em reaisCorrida ao dólar e pressão sobre o câmbio
InflaçãoCâmbio mais fraco encarece importações e repassa preços à economiaDesancoragem das expectativas inflacionárias
Erosão das reservasBC usaria reservas para defender o realRedução da proteção contra crises externas www1.folha.uol.com+1

Inflação, câmbio e reservas

Para os críticos, o elo mais perigoso da proposta é a combinação entre queda artificial da Selic e uso de reservas internacionais. Uma redução acentuada dos juros diminuiria a atratividade das aplicações em reais frente a moedas e títulos estrangeiros, favorecendo a saída de capitais.

Se o real se desvalorizasse rapidamente, o custo de bens importados, combustíveis e insumos subiria, pressionando a inflação. Nesse cenário, o Banco Central precisaria escolher entre elevar novamente os juros — frustrando o objetivo da proposta — ou gastar reservas para segurar o câmbio.

O uso das reservas é visto como especialmente sensível. Embora o país disponha de um colchão elevado — citado em torno de US$ 372,6 bilhões —, analistas avaliam que ele deveria ser preservado para enfrentar choques externos, e não para sustentar uma política de juros percebida como artificial.

O precedente de 2012

Economistas também resgataram o precedente de 2012, quando o governo Dilma Rousseff adotou uma política de redução intensa dos juros e de intervenções no setor financeiro. A experiência é lembrada como um caso em que a tentativa de estimular a economia por meio de juros mais baixos, sem respaldo fiscal consistente, contribuiu para a perda de credibilidade econômica.

Para o mercado, a lição é que juros elevados no Brasil não são apenas uma escolha arbitrária do Banco Central, mas também o preço cobrado por um histórico de fragilidade fiscal, inflação e incerteza institucional. Nessa leitura, reduzir a Selic por decreto ou por um novo conselho, sem consolidar as contas públicas, poderia reproduzir o problema em escala maior.

O recuo do governo

Diante do ruído, o ministro interino da Fazenda, Dario Durigan, agiu para conter os efeitos. Ele negou que houvesse reunião agendada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e André Lara Resende e afirmou que não há proposta de tabelamento de juros em discussão no governo.

“Propostas como tabelar os juros ou queimar reservas cambiais não estão em avaliação”, declarou Durigan, segundo o G1. O ministro também negou qualquer plano de utilizar reservas internacionais para compensar uma eventual fuga de capitais.

A declaração buscou separar a proposta teórica do economista da agenda oficial do governo. Ainda assim, o episódio mostrou a sensibilidade dos ativos brasileiros a qualquer sinal, mesmo indireto, de mudança no regime de política monetária.

O que está em jogo

O debate expõe uma tensão central da economia brasileira: como reduzir o custo da dívida sem comprometer a âncora inflacionária. Para Lara Resende e apoiadores, a Selic elevada alimenta um círculo vicioso de endividamento público; para o mercado, a solução passa por ajuste fiscal, redução de gastos, reformas e credibilidade, e não por limites impostos à taxa básica.

O impacto imediato nos preços dos ativos indica que os investidores tratam a autonomia do Banco Central e a trajetória da dívida como variáveis decisivas. Enquanto não houver clareza sobre a condução fiscal, qualquer discussão sobre intervenção mais direta na Selic tende a ser recebida com desconfiança e com volatilidade.