Washington classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, enquanto o governo Lula rejeitou o enquadramento por considerar que ele ameaça a soberania nacional. Estimativa repercutida pelo jornal francês Le Figaro aponta que a criminalidade e as economias ilícitas podem provocar perdas de até R$ 1,5 trilhão por ano no país
O crescimento do crime organizado transformou-se em um dos maiores desafios institucionais e econômicos do Brasil. Facções que surgiram dentro do sistema prisional ampliaram sua presença para o tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro, contrabando, roubo de cargas, comércio clandestino e infiltração em atividades aparentemente legais.
O problema deixou de estar restrito às penitenciárias e às áreas dominadas por traficantes. Hoje, alcança empresas, serviços financeiros, cadeias logísticas, postos de combustíveis, transportes, comércio digital e diferentes setores da economia. Em comunidades controladas por grupos armados, moradores e comerciantes também podem ser obrigados a pagar taxas ilegais ou contratar serviços definidos pelas próprias organizações criminosas.
Esse avanço colocou o Brasil no centro de uma controvérsia internacional: a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho, o CV, como organizações terroristas estrangeiras.
Estados Unidos classificam PCC e CV como terroristas
Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado norte-americano anunciou que as duas maiores facções brasileiras seriam enquadradas como Organizações Terroristas Estrangeiras, conhecidas pela sigla FTO, e como Terroristas Globais Especialmente Designados, ou SDGT. A classificação passou a produzir efeitos em 5 de junho.
A inclusão foi registrada oficialmente pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. O documento norte-americano passou a identificar PCC e Comando Vermelho simultaneamente como organizações criminosas e grupos terroristas transnacionais.
Na prática, a classificação amplia as ferramentas jurídicas e financeiras que podem ser utilizadas pelos Estados Unidos. Ela permite bloquear bens sob jurisdição norte-americana, restringir transações e responsabilizar pessoas ou instituições que prestem apoio material às organizações designadas. Também pode produzir consequências migratórias e dificultar a circulação internacional de integrantes e operadores financeiros das facções.
Para os defensores da medida, o PCC e o Comando Vermelho já ultrapassaram os limites do crime comum. Essas organizações possuem estruturas permanentes, domínio territorial, conexões internacionais, capacidade financeira e histórico de violência contra agentes públicos e populações civis.
O governo norte-americano entende que a atuação transnacional das facções representa uma ameaça que justifica mecanismos semelhantes aos empregados contra grupos terroristas de outros países.
Lula rejeita classificação e fala em soberania
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu contra a decisão dos Estados Unidos. Lula classificou a medida como uma interferência indevida em assuntos internos brasileiros e afirmou que o país não aceitaria ser tratado como uma nação incapaz de enfrentar seus próprios problemas.
O governo brasileiro argumenta que PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas voltadas principalmente para a obtenção de lucro por meio do narcotráfico e de outras atividades ilegais. Segundo essa interpretação, as facções devem ser combatidas com instrumentos de segurança pública, inteligência, cooperação policial, investigação financeira e legislação contra o crime organizado e não necessariamente com o enquadramento jurídico reservado ao terrorismo.
A administração Lula também demonstrou preocupação com a possibilidade de a classificação abrir espaço para intervenções externas, sanções econômicas ou punições contra empresas que tenham sido utilizadas pelo crime sem conhecimento de seus responsáveis.
A posição do governo, porém, passou a ser criticada pela oposição. Parlamentares contrários a Lula sustentam que a classificação internacional poderia ampliar o rastreamento de recursos, o bloqueio de patrimônio e a cooperação contra redes de narcotráfico.
Após as eleições presidenciais de 2022, circularam nas redes sociais vídeos que mostram presos e integrantes de organizações criminosas comemorado a vitória de Lula, o fato serviu para opositores de direita acusarem o presidente Lula de receber apoio do crime organizado, por isso sua defesa em não classificar o PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
O debate, portanto, não se resume a ser favorável ou contrário ao combate às facções. A divergência está principalmente no tipo de instrumento jurídico a ser empregado e nos riscos políticos, econômicos e diplomáticos associados ao rótulo de terrorismo.
Le Figaro aponta impacto bilionário sobre a economia
A dimensão econômica do crime organizado ganhou repercussão internacional em junho de 2026, quando o jornal francês Le Figaro publicou uma reportagem sobre a influência das facções na economia brasileira.
A matéria afirmou que os grupos de narcotraficantes funcionam como um obstáculo ao crescimento econômico, prejudicando a arrecadação do Estado, o funcionamento das empresas e o orçamento das famílias.
Com base em números atribuídos ao Instituto Igarapé, o jornal apontou que o custo acumulado da criminalidade e das economias ilícitas poderia chegar a R$ 1,5 trilhão por ano, valor equivalente a aproximadamente 12% a 14% do Produto Interno Bruto brasileiro. A reportagem comparou essa quantia ao tamanho das economias de países como Portugal e República Tcheca.
É importante compreender corretamente esse número. Os R$ 1,5 trilhão não representam apenas o faturamento direto do narcotráfico. A estimativa reúne custos mais amplos associados à violência, aos mercados clandestinos, à perda de arrecadação, à lavagem de dinheiro, aos gastos públicos e privados com segurança e aos prejuízos provocados pelas economias ilícitas.
O Le Figaro também citou uma estimativa segundo a qual o PCC teria faturamento anual próximo de R$ 7 bilhões. O valor, atribuído ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é muito menor do que o custo total da criminalidade, mas demonstra a capacidade financeira alcançada por uma única organização.
O Brasil enfrenta uma ameaça real, organizada e economicamente poderosa. A disputa política sobre o uso da palavra “terrorismo” não pode desviar a atenção do problema central: organizações criminosas estão retirando recursos da economia legal, enfraquecendo instituições, explorando comunidades e ampliando sua presença internacional.
