Com possibilidade de um El Niño excepcionalmente forte, o Brasil já conhece os riscos: excesso de chuva e enchentes no Sul, seca em parte do Norte e Nordeste, ondas de calor, incêndios e prejuízos à agricultura. O alerta existe com meses de antecedência. A questão agora é saber se União, estados e municípios transformarão previsão em prevenção, ou voltarão a agir quando o desastre já estiver instalado.
O Brasil entra nos últimos meses de 2026 diante de um alerta climático que não pode ser tratado como mais uma previsão meteorológica de rotina. O Instituto Nacional de Meteorologia informou, com base nas projeções da NOAA, que existe probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño classificado como muito forte nos próximos trimestres. Mais impressionante: a estimativa divulgada pelo INMET aponta 69% de possibilidade de o episódio se tornar o mais intenso registrado desde 1950, podendo alcançar anomalia de temperatura de pelo menos 2,5 °C no Pacífico.
Isso não significa que cada cidade brasileira sofrerá uma catástrofe. El Niño modifica probabilidades climáticas e seus impactos variam conforme região, relevo, bacias hidrográficas, urbanização e sucessão de sistemas meteorológicos. Mas significa algo politicamente muito importante: o risco é conhecido antecipadamente.
E quando um risco dessa magnitude é conhecido com antecedência, a responsabilidade do poder público muda. Não basta emitir alerta quando o rio já está subindo, enviar Defesa Civil quando bairros já estão inundados ou anunciar recursos depois de casas, lavouras, estradas e vidas terem sido atingidas.
A previsão está dada
No Sul do Brasil, o cenário merece atenção especial. O INMET informa que o El Niño tende a favorecer chuvas acima da média na Região Sul. O próprio instituto já registrou que, em julho de 2026, os acumulados ficaram entre 30% e 90% acima da média, dependendo da localidade. A previsão é de continuidade de uma configuração favorável a precipitações acima do normal nos próximos meses.
O boletim conjunto produzido por INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e outros órgãos também projeta intensificação do El Niño durante o segundo semestre, com elevada probabilidade de um evento muito forte entre a primavera e o início do verão.
A Organização Meteorológica Mundial vai na mesma direção: o El Niño está se fortalecendo e deverá influenciar intensamente temperatura e precipitação nos próximos meses. A entidade ressalta que previsões antecipadas existem justamente para permitir que governos protejam vidas e meios de subsistência antes dos extremos climáticos.
Portanto, ninguém poderá dizer mais adiante que não havia informação.
O problema não começa quando começa a chover
Prevenção de desastre não é colocar caminhões, helicópteros e barcos na rua depois que a população precisa ser resgatada.
Prevenção significa limpar e ampliar sistemas de drenagem; revisar diques e comportas; retirar famílias de áreas de risco extremo; mapear encostas; desassorear onde tecnicamente indicado; fiscalizar ocupações vulneráveis; recuperar estruturas de contenção; verificar pontes; preparar hospitais; estabelecer rotas de evacuação; garantir geradores, água potável, medicamentos e abrigos; proteger sistemas de telecomunicações; treinar equipes municipais; revisar barragens; monitorar rios; estabelecer estoques estratégicos e manter comunicação direta com a população.
No campo, a preparação envolve ainda planejamento para excesso ou falta de água, orientação agronômica, seguro rural, defesa sanitária, infraestrutura de estradas e pontes e mecanismos para diminuir perdas de produtores.
Nas regiões em que o El Niño tende a reduzir as chuvas, o desafio é diferente: segurança hídrica, reservatórios, abastecimento, agricultura, ondas de calor e incêndios florestais passam a exigir preparação antecipada. O Cemaden já apontava em julho 157 municípios classificados em seca severa, evidenciando que o país poderá enfrentar extremos opostos simultaneamente.
Eleição não pode ser mais importante que prevenção
2026 é ano eleitoral. A máquina política brasileira naturalmente está tomada por alianças, candidaturas, pesquisas, convenções, estratégias partidárias e pela disputa pelo poder.
Isso faz parte da democracia.
O que não pode acontecer é o calendário eleitoral consumir a atenção administrativa de governos enquanto uma ameaça climática de grande magnitude se forma diante do país.
Governadores continuam governadores durante a eleição. Prefeitos continuam responsáveis por suas cidades. Ministros continuam responsáveis por seus ministérios. O Governo Federal não entra em férias porque existem urnas em outubro.
A população tem o direito de perguntar agora, e não depois da enchente, quais obras foram concluídas, quais continuam apenas no papel, quais municípios possuem planos de contingência atualizados, quantas famílias permanecem em áreas de risco, quais rios têm monitoramento adequado, onde faltam radares e estações, qual capacidade de abrigo existe e quanto do orçamento de prevenção já foi efetivamente executado.
É justamente aqui que a cobrança pública deve ser mais dura.
O Cemaden ampliou sua rede e passou a monitorar 1.295 municípios em março de 2026, incluindo novas cidades consideradas vulneráveis a inundações, enxurradas e deslizamentos.
Dinheiro autorizado não é necessariamente obra pronta. Projeto selecionado não é drenagem funcionando. Convênio assinado não retira uma família de área de risco. Estação de monitoramento não substitui plano de evacuação. E alerta recebido no celular não resolve uma ponte incapaz de suportar uma cheia.
O Brasil não pode transformar previsão em retrospectiva
Depois de toda grande tragédia climática, aparecem as mesmas frases: “evento excepcional”, “volume nunca visto”, “situação imprevisível”, “ninguém poderia imaginar”.
Para o El Niño de 2026-2027, esse discurso terá muito menos força.
Meteorologistas estão avisando. Institutos brasileiros estão avisando. A NOAA está avisando. A Organização Meteorológica Mundial está avisando.
O fenômeno pode se estender pelo menos até o início de 2027 e existe uma possibilidade real de entrar para a história entre os episódios mais intensos já observados.
O resultado final ainda não pode ser conhecido. Não é possível prever hoje qual cidade será inundada, onde ocorrerá uma enxurrada ou exatamente quanto choverá em determinado município meses adiante.
Mas gestão de risco não exige certeza absoluta.
Exige agir diante de uma probabilidade elevada combinada com consequências potencialmente graves.
O verdadeiro teste dos governos começa antes do desastre
Se as previsões se confirmarem, haverá tempo para discutir responsabilidades depois. Neste momento, porém, ainda existe algo mais valioso: tempo para evitar parte dos danos.
É agora que prefeitos precisam revisar pontos críticos. É agora que estados precisam concluir obras emergenciais e testar seus sistemas de resposta. É agora que União, estados e municípios precisam compartilhar informações, equipamentos e recursos. É agora que hospitais, concessionárias, escolas e estruturas de Defesa Civil precisam saber como reagir.
A campanha eleitoral passará.
Os efeitos de uma enchente, de uma seca prolongada, de uma ponte destruída ou de uma família que perdeu tudo podem durar anos.
O Brasil já recebeu o alerta. A ciência fez sua parte ao antecipar o risco. Daqui em diante, prevenção deixa de ser apenas uma questão meteorológica e passa a ser uma questão de prioridade política, gestão pública e responsabilidade.
Se os governos utilizarem os próximos meses para preparar cidades e comunidades, muitas perdas poderão ser reduzidas.
Se esperarem o desastre chegar para descobrir o que deveria ter sido feito, então a pergunta será inevitável: Se todos sabiam que o risco estava vindo, por que não fizeram mais enquanto ainda havia tempo?
