Macas nos corredores e bilhões em outras prioridades: o retrato incômodo da saúde pública brasileira

Macas nos corredores e bilhões em outras prioridades: o retrato incômodo da saúde pública brasileira

Enquanto pacientes enfrentam pronto-socorros superlotados, falta de leitos, espera por exames, internações, os profissionais trabalham no limite para manter o atendimento. Do outro lado das contas públicas, bilhões financiam campanhas eleitorais, viagens oficiais e outras despesas que alimentam o debate sobre as prioridades do Estado brasileiro.

Entrar em um pronto atendimento de hospital público brasileiro nota-se superlotação, uma realidade que há décadas se repete em diferentes regiões do país: pacientes acomodados em macas (quando tem), ou então ficam sentados em cadeiras e isto tudo em corredores; idosos ao lado de jovens; pessoas com problemas respiratórios, traumas, dores, infecções e outras enfermidades disputando o mesmo espaço e respirando o mesmo ar insalubre, pois janelas não existe; familiares aguardando o atendimento do seu ente querido; e mesmo no meio do caus, profissionais correm de um lado para outro para atender com dignidade as emergências sucessivas, muitas vezes, esses corredores ultrapassam a função de ser apenas uma área temporária de atendimento, tornando-se o local de estadia até conseguir um leito.

Não se trata apenas de percepção. Casos registrados em 2026 mostram que a superlotação continua sendo um problema concreto da assistência pública brasileira.

No Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, pacientes relataram em abril sofrimento com a superlotação e permanência em corredores. A unidade possuía 39 vagas no pronto-socorro, mas naquele dia havia 74 pacientes somente no setor. Documentos obtidos pela reportagem mostraram ocupação de 151% em janeiro e 171% em março de 2026.

No Rio Grande do Sul, a Santa Casa de Rio Grande informou em junho que todos os seus 50 pontos de cuidado da emergência estavam ocupados e que pacientes excedentes precisavam ser acomodados em macas e até em salas de medicação. A ocupação chegou a 152,38% e, no dia seguinte, atingiu 185,7%. Havia 11 pacientes esperando uma vaga de UTI; seis estavam em ventilação mecânica. O PS de Pelotas também enfrenta todos os dias superlotação, com macas e cadeiras nos corredores, profissionais da saúde enfrentam dia e noite um ambiente de guerra, mas, sempre com o máximo do zelo, ética e profissionalismo vão acomodando os novos pacientes em macas ou cadeiras entre um corredor e outro.

Em Teresina, pacientes da UPA do Renascença também reclamaram em maio de 2026 de demora e superlotação. A Fundação Municipal de Saúde reconheceu uma alta demanda, especialmente de pacientes ortopédicos por acidentes de trânsito e quedas, embora tenha afirmado que todos receberam assistência.

Esses episódios têm endereços diferentes, mas o cenário é familiar para quem depende da urgência pública: a emergência deixa de ser porta de passagem e passa a funcionar como enfermaria improvisada porque simplesmente não existe leito disponível para transferir o paciente.

Quem segura a emergência quando a estrutura não acompanha a demanda

No meio desse cenário estão médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, residentes e demais trabalhadores da saúde. Nos hospitais de ensino, estudantes e internos também convivem com uma realidade que nenhuma sala de aula consegue reproduzir.

É fácil olhar para uma fila e responsabilizar quem está usando o jaleco. Mas frequentemente o profissional que está diante do paciente não controla o número de leitos, a compra de medicamentos, a escala completa das especialidades, o fluxo de regulação nem o orçamento.

O Conselho Federal de Medicina discutiu em dezembro de 2025 justamente o impacto da superlotação. Especialistas apontaram que ela ocorre quando a quantidade de pacientes supera a capacidade estrutural e que um dos maiores gargalos está na impossibilidade de retirar da emergência aqueles que já deveriam estar internados. Um estudo brasileiro citado no encontro associou cada dia adicional de permanência no pronto-socorro aumenta 6% as chances de morte hospitalar.

A falta de condições de trabalho também aparece nas fiscalizações. Em Canoas, no Rio Grande do Sul, o Cremers registrou superlotação, problemas nas escalas, falta de insumos e medicamentos. Em procedimentos posteriores, a Justiça exigiu regularização de profissionais e comprovação do fornecimento de medicamentos, equipamentos e outros materiais necessários ao atendimento.

São situações nas quais a expressão popular de que os profissionais precisam “fazer milagres” deixa de parecer exagero. Não porque a medicina funcione por milagre, mas porque equipes são obrigadas a tentar manter padrões de assistência dentro de estruturas que, em determinados momentos, já ultrapassaram seus limites físicos.

O Tribunal de Contas da União encontrou problemas recentes. Em auditoria divulgada em junho de 2026 sobre o programa Agora Tem Especialistas, o TCU informou que, no componente ambulatorial, consultas e exames especializados , apenas 6,9% do que estados e municípios haviam planejado foi realizado em 2025.

O contraste com outras despesas públicas

É justamente nesse ponto que cresce a revolta de quem aguarda em uma maca.

Para as eleições de 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha tem aproximadamente R$ 4,9 bilhões em recursos públicos, já disponibilizados pela União ao Tribunal Superior Eleitoral para distribuição aos partidos. O fundo existe por determinação legal e seu valor decorre do processo orçamentário aprovado pelo Congresso.

Em outras palavras, enquanto famílias ouvem que determinado tratamento, vaga ou serviço enfrenta limitação de recursos, o sistema político brasileiro reserva quase R$ 5 bilhões para financiar campanhas eleitorais.

As viagens a serviço de todo o governo federal também somavam, em 2026, cerca de R$ 1,11 bilhões, segundo o Portal da Transparência, o volume ajuda a dimensionar o tamanho da máquina pública.

Em 2025, o Palácio do Planalto abriu licitações estimadas em cerca de R$ 1,76 milhões para móveis e eletrodomésticos. Entre os itens estavam 38 máquinas de polir calçados avaliadas em R$ 62,7 mil e 18 frigobares estimados em R$ 44,2 mil.

O Fundo Nacional de Cultura possui em 2026 orçamento atualizado de aproximadamente R$ 3,18 bilhões. Isso é recurso público destinado à política cultural, onde geralmente a parte maior fica com seleto número de artistas.

O governo Lula liberou R$ 520 milhões para propaganda antes da eleição, mais que o dobro de presedente antecessor em 2022.

Nenhum desses valores resolveria sozinho a crise nacional da saúde. Compará-los diretamente com um orçamento de centenas de bilhões seria economicamente simplista. Mas o efeito político é inevitável: para quem espera horas em uma cadeira ou vê um familiar em uma maca de corredor, cada gasto considerado dispensável transforma-se em símbolo de prioridades desconectadas da realidade cotidiana.

O cidadão precisa de médicos especialistas disponíveis, medicamentos, maca, cobertor, exame no tempo necessário, cirurgia, UTI e dignidade.

O Brasil não pode se acostumar com o corredor como enfermaria

Talvez o maior risco seja a normalização.

Uma maca no corredor deixa de causar espanto. A emergência com 150% da capacidade vira rotina. O familiar leva cobertor de casa. O enfermeiro improvisa. O médico tenta encontrar uma vaga que não existe. O paciente espera.

E todos passam a considerar isso apenas “o SUS sendo SUS”.

Não deveria ser assim.

O SUS é uma das maiores redes públicas de saúde do mundo e realiza desde vacinação e atenção básica até transplantes, tratamento de câncer e procedimentos de altíssima complexidade. Exatamente por sua importância, seus fracassos na porta da emergência não podem ser tratados como inevitáveis.

É legítimo que a sociedade questione cada bilhão gasto fora das áreas essenciais. Fundo eleitoral, viagens, estruturas administrativas, eventos, móveis, estádios e políticas culturais possuem justificativas, leis e finalidades próprias. Algumas são necessárias; outras podem e devem ser debatidas.

Mas existe um teste simples para qualquer Estado que se diz comprometido com seus cidadãos:

Um país capaz de financiar campanhas bilionárias, grandes eventos e uma enorme máquina pública não pode aceitar como normal que uma pessoa doente passe a noite em uma maca de corredor esperando por um leito.

Antes de qualquer slogan eleitoral, essa deveria ser uma promessa básica de governo, em Brasília, nos Estados e em cada prefeitura: ninguém deveria precisar perder a dignidade justamente no momento em que mais precisa do poder público.