Dados oficiais confirmam uma forte reversão nas contas públicas. Governo Central passou de superávit de R$ 54,1 bilhões em 2022 para déficit de R$ 61,7 bilhões em 2025; dívida bruta alcançou 78,7% do PIB
O Brasil encerrou 2025 com um resultado fiscal muito diferente daquele registrado no último ano do governo de Jair Bolsonaro. Enquanto 2022 terminou com superávit primário de R$ 54,1 bilhões nas contas do Governo Central, o terceiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva fechou com déficit primário de R$ 55 bilhões no setor público consolidado.
A mudança de sinal é real e revela uma deterioração preocupante das contas públicas, segundo o Resultado do Tesouro Nacional de dezembro de 2022, o Governo Central, formado pelo Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social, registrou superávit de R$ 54,1 bilhões naquele ano. Em 2025, pelo mesmo critério do Tesouro, o resultado foi um déficit de R$ 61,7 bilhões.
Já pelo critério do Banco Central, que considera todo o setor público consolidado, incluindo governos estaduais, municipais e empresas estatais, o país passou de superávit de R$ 126 bilhões em 2022 para déficit de R$ 55 bilhões em 2025.
Os números da virada fiscal
| Indicador | 2022 – Bolsonaro | 2025 – Lula |
|---|---|---|
| Resultado primário do Governo Central – Tesouro | + R$ 54,1 bilhões | – R$ 61,7 bilhões |
| Resultado primário do setor público consolidado – Banco Central | + R$ 126 bilhões | – R$ 55 bilhões |
| Resultado nominal, incluindo juros | – R$ 460,4 bilhões | – R$ 1,062 trilhão |
| Dívida Bruta do Governo Geral | 73,5% do PIB | 78,7% do PIB |
Valores positivos representam superávit; valores negativos, déficit. Os montantes são nominais e não foram corrigidos pela inflação.
A comparação demonstra que, adotando-se o mesmo grupo de contas em cada ano, houve uma clara inversão. No conceito do Governo Central, o saldo saiu de R$ 54,1 bilhões positivos para R$ 61,7 bilhões negativos. No setor público consolidado, passou de R$ 126 bilhões positivos para R$ 55 bilhões negativos.
O que significa superávit primário
O resultado primário corresponde à diferença entre as receitas e as despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida pública.
Quando as receitas superam as despesas primárias, há superávit. Quando os gastos ultrapassam a arrecadação, ocorre déficit, popularmente chamado de rombo.
O superávit de 2022 foi obtido por uma combinação de aumento expressivo das receitas, contenção de algumas despesas e redução dos gastos extraordinários relacionados à pandemia.
A receita líquida do Governo Central cresceu 7,7% acima da inflação em relação a 2021, enquanto a despesa total avançou 2,1% em termos reais. Entre os principais fatores positivos estavam:
- aumento real de R$ 102,4 bilhões na arrecadação do Imposto de Renda;
- crescimento real de R$ 34,2 bilhões na CSLL;
- elevação de R$ 36,8 bilhões nas receitas de concessões e permissões;
- aumento real de R$ 40,4 bilhões em dividendos e participações;
- crescimento real de R$ 30,4 bilhões nas receitas de exploração de recursos naturais;
- melhora do emprego formal e da arrecadação previdenciária;
- redução real de 6,1% nas despesas com pessoal, influenciada pela ausência de reajustes para servidores civis.
Os dividendos adicionais recebidos pela União vieram principalmente da Petrobras, que respondeu por crescimento real de R$ 34,1 bilhões nessa rubrica. Também contribuíram os recursos da privatização da Eletrobras, os bônus de concessões e a alta internacional do petróleo.
O Tesouro registrou que o preço médio internacional do barril subiu 42,3%, aumentando royalties, participações especiais, lucros e dividendos ligados ao setor petrolífero. Esses dados constam no boletim fiscal oficial de 2022.
Também houve forte redução dos créditos extraordinários: os gastos associados ao combate à Covid-19 caíram R$ 113,7 bilhões, embora parte dessa economia tenha sido compensada pela ampliação do Auxílio Brasil e de outros benefícios durante o período eleitoral.
Isso mostra que o resultado positivo não foi produzido por uma única medida.
O resultado positivo de 2022 não significa que todas as obrigações do governo tenham sido quitadas. O Tribunal de Contas da União apontou que o estoque de restos a pagar chegou a R$ 255,2 bilhões no final daquele exercício, com crescimento nominal de 9,3%.
Do total, 77,2% correspondiam a despesas empenhadas em 2022 e ainda não pagas até 31 de dezembro. Esse estoque incluía despesas obrigatórias, benefícios previdenciários, recursos da saúde, transferências e outros compromissos do Orçamento.
Por que 2025 terminou no vermelho
O Tesouro Nacional informou que a receita líquida do Governo Central cresceu 2,8% acima da inflação em 2025. O problema é que as despesas aumentaram 3,4%, ritmo superior ao crescimento das receitas.
Entre os principais aumentos reais registrados em relação a 2024 estavam:
- R$ 41,4 bilhões em benefícios previdenciários;
- R$ 16,9 bilhões em pessoal e encargos sociais;
- R$ 10,8 bilhões no Benefício de Prestação Continuada;
- R$ 10 bilhões na complementação da União ao Fundeb;
- R$ 11,9 bilhões em despesas discricionárias;
- R$ 6,8 bilhões em subsídios, subvenções e Proagro;
- R$ 6,3 bilhões em sentenças judiciais e precatórios.
A valorização do salário mínimo elevou despesas previdenciárias, assistenciais e trabalhistas. Também houve reajustes para o funcionalismo federal, ampliação dos beneficiários da Previdência e do BPC, crescimento dos gastos com educação e pagamento de obrigações judiciais.
Ao mesmo tempo, algumas receitas extraordinárias diminuíram. Os ingressos com concessões e permissões recuaram R$ 10 bilhões em termos reais, enquanto os dividendos recebidos pela União caíram R$ 26,3 bilhões. A redução foi puxada principalmente por menores repasses da Petrobras, do BNDES e do Banco do Brasil.
Mesmo com aumento da arrecadação do Imposto de Renda, do IOF e das contribuições previdenciárias, o crescimento das receitas não foi suficiente para acompanhar as despesas.
Juros superaram R$ 1 trilhão
O quadro torna-se ainda mais grave quando são incluídos os juros da dívida.
Em 2025, os juros nominais do setor público alcançaram R$ 1,007 trilhão, equivalentes a 7,91% do PIB. Somando os juros ao déficit primário, o resultado nominal ficou negativo em R$ 1,062 trilhão, ou 8,34% do PIB.
Segundo o Banco Central, o aumento da conta de juros foi influenciado pela taxa Selic elevada e pelo crescimento do estoque da dívida.
A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a R$ 10 trilhões, equivalentes a 78,7% do PIB. Em 2022, ela correspondia a 73,5% do PIB. Isso representa crescimento de 5,2 pontos percentuais em três anos.
Estatais também contribuíram para o resultado negativo
As empresas estatais, excluídas Petrobras e bancos públicos da metodologia do Banco Central, registraram déficit primário próximo de R$ 5,8 bilhões em 2025.
O saldo negativo das estatais agravou o resultado consolidado. Enquanto os governos estaduais e municipais produziram superávit primário de R$ 9,5 bilhões, o Governo Central e as empresas estatais permaneceram no vermelho.
Além do impacto imediato, empresas públicas deficitárias podem exigir aportes, garantias da União ou empréstimos, aumentando os riscos para os contribuintes.
Houve uma deterioração fiscal clara durante o governo Lula. Em 2025, as despesas cresceram acima das receitas, o Governo Central voltou ao déficit, as estatais permaneceram no vermelho e a dívida pública avançou para 78,7% do PIB.
Mesmo descontando as diferenças de metodologia e as obrigações herdadas, o Brasil saiu de um resultado primário positivo em 2022 para um saldo negativo em 2025. A reversão preocupa porque reduz a capacidade de investimento do Estado, aumenta as despesas com juros e pode levar a mais impostos, cortes futuros ou crescimento ainda maior da dívida.
