Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, diz que a operação foi privada e já está encerrada; circunstâncias, condições e forma original do empréstimo ainda não foram detalhadas publicamente
O ex-chefe de gabinete da Presidência da República Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, confirmou ter mantido uma operação financeira com a empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal em desdobramentos do caso das fraudes contra beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social. Segundo nota divulgada nesta terça-feira, 4 de agosto, ele realizou uma transferência bancária de R$ 249 mil para quitar um empréstimo pessoal obtido com a empresária.
A redação da manifestação merece atenção. Algumas reportagens apresentaram os R$ 249 mil como o valor recebido por Marcola, enquanto a nota afirma que o empréstimo foi “pago com a transferência bancária de R$ 249 mil”. Portanto, o montante divulgado corresponde, com segurança, ao valor da quitação informada pelo ex-assessor. Não foram apresentados publicamente o contrato, o valor originalmente emprestado, a data da contratação, os juros, o prazo ou a quantidade de parcelas.
Marcola classificou a movimentação como de natureza “estritamente privada” e negou qualquer ilegalidade relacionada ao período em que trabalhava no Palácio do Planalto. Também informou que colocou seus sigilos bancário e fiscal à disposição da Justiça e que constituiu advogado para prestar esclarecimentos às autoridades.
Reportagens apontam pagamentos realizados em 2025
A existência da relação financeira veio a público depois de reportagens informarem que Roberta Luchsinger teria realizado pagamentos em benefício de Marcola. O Poder360 afirmou ter confirmado as transferências com quatro pessoas familiarizadas com o caso, mas reconheceu inicialmente que os valores completos e a motivação das operações não eram conhecidos. Após a publicação, o ex-assessor confirmou o empréstimo e declarou que a dívida já havia sido paga.
O Metrópoles publicou que os repasses teriam ocorrido ao longo de 2025 e que parte das despesas pessoais teria sido paga por meio de códigos de barras encaminhados à empresária. A reportagem atribui essas informações a conversas obtidas pela Polícia Federal no celular de Roberta. Essas circunstâncias, entretanto, são informações jornalísticas sobre uma investigação ainda em andamento e não representam uma conclusão judicial.
A explicação divulgada por Marcola não esclarece por que ele precisou solicitar o empréstimo, como os recursos foram entregues originalmente nem se existia um documento formalizando a operação. Questionamentos encaminhados pelo Poder360 sobre contrato, juros, prazos e parcelas não haviam sido respondidos até a atualização da reportagem.
Quem é Roberta Luchsinger
Roberta Luchsinger é empresária e dirige uma consultoria voltada à intermediação de serviços e negócios. Ela é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e foi alvo de medidas judiciais relacionadas à Operação Sem Desconto, que investiga desvios e cobranças indevidas em benefícios do INSS.
Segundo o Poder360, Roberta prestou serviços a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, um dos principais investigados no esquema. Ela confirmou ter apresentado Antunes a Lulinha, mas negou que o encontro tivesse o objetivo de intermediar negócios entre os dois. Por meio de seu advogado, afirmou que responderá aos questionamentos dentro do processo.
O Metrópoles informou que a relação entre Roberta e Marcola integra uma apuração sobre possível tráfico de influência. Já a Revista Oeste afirmou que, até a publicação de sua matéria, Marcola não figurava formalmente como investigado. Como partes dos procedimentos permanecem sob sigilo, não é possível confirmar publicamente a extensão exata de sua situação processual.
Saída do governo e repercussão política
Marcola ocupou a chefia de gabinete de Lula desde o início do terceiro mandato presidencial e deixou o Palácio do Planalto em julho de 2026 para atuar na campanha de reeleição do presidente. Ele era responsável pela organização da agenda presidencial e mantinha contato frequente com ministros e integrantes do governo.
Após a divulgação do empréstimo, Lula teria determinado que o antigo auxiliar apresentasse explicações detalhadas. De acordo com a Folha de S.Paulo, integrantes do entorno presidencial demonstraram preocupação com a possível repercussão eleitoral do episódio, embora Marcola sustente que não houve relação entre a transação particular e suas funções públicas.
Pontos que ainda precisam ser esclarecidos
A confirmação da transferência de R$ 249 mil não resolve todas as dúvidas sobre a operação. Permanecem sem resposta pública a finalidade do empréstimo, a data em que os recursos foram entregues, a forma de pagamento utilizada por Roberta, a existência de contrato, os juros cobrados e a compatibilidade da operação com a renda declarada pelas partes.
Também deverá ser esclarecido se a movimentação possui alguma relação com os fatos investigados pela Polícia Federal ou se, como afirma Marcola, foi exclusivamente uma negociação pessoal. Até o momento, a existência do empréstimo e sua proximidade com pessoas investigadas justificam questionamentos, mas não constituem, por si só, prova de crime.
Marcola nega irregularidades, declara que a dívida foi quitada e afirma estar disposto a fornecer documentos à Justiça. Roberta Luchsinger, por sua vez, informou por meio de sua defesa que se manifestará nos autos. O avanço das investigações e a eventual apresentação dos documentos financeiros serão fundamentais para esclarecer a origem, o destino e as condições da operação.
