Nova classificação coloca o Podocnemis sextuberculata na categoria “Em Perigo” e reforça a necessidade de proteger praias de desova, combater a captura ilegal e envolver comunidades amazônicas nas ações de conservação
Uma das espécies mais conhecidas entre os quelônios da Amazônia passou a integrar oficialmente a lista brasileira de animais ameaçados de extinção. O cágado-iaçá, também chamado de pitiú e identificado cientificamente como Podocnemis sextuberculata, foi classificado como Em Perigo na atualização publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em junho de 2026.
A inclusão foi formalizada pela Portaria MMA nº 1.704, de 16 de junho de 2026, publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte. O documento atualizou a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção para répteis, anfíbios, aves, mamíferos e invertebrados terrestres.
Embora algumas reportagens utilizem o termo “tracajás” de forma ampla para se referir aos cágados amazônicos, a espécie que entrou na categoria Em Perigo foi especificamente o cágado-iaçá. O tracajá propriamente dito, Podocnemis unifilis, e a tartaruga-da-amazônia, Podocnemis expansa, permanecem classificadas nacionalmente em uma categoria de menor preocupação.
População caiu mais de 50%
A mudança de classificação foi motivada principalmente pela redução expressiva da população do cágado-iaçá. Segundo informações do Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade, as populações analisadas diminuíram mais de 50% ao longo de aproximadamente 36 anos, período equivalente a três gerações da espécie.
O declínio foi observado principalmente no Amazonas e no oeste do Pará, área que representa cerca de 70% da distribuição da espécie no Brasil. A dimensão da perda levou os especialistas a elevar o nível de risco de “Quase Ameaçado” para “Em Perigo”.
A categoria “Em Perigo” indica que a espécie enfrenta um risco elevado de desaparecer da natureza caso as pressões atuais continuem. Para chegar a essa classificação, os pesquisadores consideram fatores como redução populacional, tamanho das populações, distribuição geográfica, fragmentação dos ambientes, intensidade da captura e medidas de proteção já existentes.
Captura ilegal e destruição dos locais de reprodução
Os quelônios amazônicos sofrem historicamente com a retirada de animais adultos e ovos para consumo e comércio ilegal. Durante o período de reprodução, as fêmeas saem da água para depositar os ovos em praias e bancos de areia, ficando mais expostas à captura humana e à perturbação dos ninhos.
Operações realizadas pelo Ibama continuam encontrando tartarugas, tracajás e iaçás mantidos ou transportados ilegalmente. Em setembro de 2025, por exemplo, uma fiscalização no rio Tapajós, no Pará, resgatou 33 quelônios vivos e encontrou evidências de caça irregular de animais silvestres.
Além da captura, a espécie enfrenta alterações nos rios e nas praias utilizadas para reprodução. Mudanças no nível das águas, destruição do habitat, ocupação das margens, circulação de embarcações, atividades turísticas próximas aos ninhos e intervenções que modificam o funcionamento natural dos rios podem reduzir o sucesso da desova e a sobrevivência dos filhotes.
A proteção das praias é especialmente importante porque ovos e filhotes ficam vulneráveis durante semanas. Em áreas de maior risco, equipes de conservação e moradores transferem os ovos para berçários protegidos que reproduzem as condições naturais, acompanhando a incubação até o nascimento e a soltura dos animais.
Uma relação histórica com as comunidades amazônicas
O cágado-iaçá faz parte da alimentação e da cultura de comunidades ribeirinhas e indígenas. Por isso, especialistas defendem que as medidas de conservação não sejam construídas apenas com fiscalização e proibições, mas também com diálogo, educação ambiental e participação direta das populações locais.
A presença das comunidades é considerada fundamental para vigiar praias, proteger ninhos, registrar desovas, evitar a retirada clandestina de ovos e acompanhar a soltura dos filhotes. Em muitas regiões remotas, os próprios moradores são os primeiros a identificar invasões e ameaças aos locais de reprodução.
Esse modelo procura conciliar a proteção da biodiversidade com os modos de vida amazônicos. A estratégia é impedir a exploração predatória e o comércio ilegal, sem ignorar as relações culturais e alimentares construídas ao longo de gerações.
Programa já devolveu milhões de filhotes à natureza
O Brasil mantém desde 1979 o Programa Quelônios da Amazônia, coordenado pelo Ibama em parceria com comunidades tradicionais, universidades, pesquisadores, órgãos públicos e organizações da sociedade civil.
Segundo o instituto, o programa já participou do manejo, monitoramento e retorno à natureza de mais de 107 milhões de filhotes de tartaruga-da-amazônia, tracajá e iaçá. As ações incluem identificação de áreas de reprodução, proteção das praias, acompanhamento dos ninhos, transferência de ovos ameaçados, criação de berçários e soltura dos filhotes.
Apesar dos resultados, a queda registrada nas populações do cágado-iaçá mostra que as iniciativas precisam ser ampliadas e mantidas durante longos períodos. A soltura de filhotes é importante, mas não resolve sozinha o problema quando animais adultos continuam sendo capturados ou quando praias de reprodução são destruídas.
O que muda com a lista oficial
A inclusão na Lista Nacional Oficial de Espécies Ameaçadas produz efeitos legais e administrativos. A classificação ajuda a estabelecer restrições à captura, ao transporte, ao comércio e à exportação, além de orientar ações de fiscalização e licenciamento ambiental.
A lista também permite direcionar recursos públicos, pesquisas e programas de recuperação para as espécies em maior risco. Ela serve como referência para Planos de Ação Nacional, criação e gestão de unidades de conservação, avaliação de impactos ambientais e definição de medidas para reduzir danos causados por obras e atividades econômicas.
A atualização de 2026 foi baseada em uma das maiores avaliações de fauna já realizadas no país. O processo analisou mais de 15 mil espécies e reuniu pesquisadores, técnicos e especialistas de diferentes instituições. Somadas as listas dos diferentes grupos de animais, o Brasil passou a reconhecer oficialmente cerca de 1.280 espécies ameaçadas de extinção.
Um alerta vindo dos rios
A entrada do cágado-iaçá na categoria “Em Perigo” revela que mesmo espécies ainda encontradas em grandes áreas da Amazônia podem sofrer um declínio silencioso. A presença eventual de animais nos rios não significa necessariamente que suas populações estejam estáveis.
Proteger o iaçá exige conservar os rios, manter praias de desova, combater o tráfico, fiscalizar a captura ilegal e fortalecer os projetos comunitários. Também será necessário acompanhar as populações ao longo dos próximos anos para verificar se as medidas adotadas estão conseguindo interromper a redução.
Mais do que reconhecer uma situação de risco, a nova classificação representa um chamado para agir enquanto ainda existem populações capazes de se recuperar. O futuro desses quelônios dependerá da união entre ciência, poder público e comunidades que vivem diariamente junto aos rios da Amazônia.
