O Brasil tem muito mais a oferecer ao viajante de natureza do que os clássicos Bonito (MS) e Chapada dos Veadeiros (GO). Uma rede crescente de parques nacionais, trilhas de longo curso e experiências conduzidas por comunidades locais vem colocando destinos como a Serra da Ibiapaba, o Vale do Peruaçu, Silves e a Amazônia Atlântica no mapa do ecoturismo.
O Ministério do Turismo e o ICMBio coordenam a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade, que já possui 22 rotas homologadas. A proposta é conectar unidades de conservação, municípios e comunidades, transformando caminhadas em instrumento de conservação e geração de renda.
Trilhas que atravessam o país
As trilhas de longo curso são percursos para caminhadas de vários dias, que podem exigir um pernoite ou mais de 28 dias de caminhada, conforme a classificação nacional. Elas conectam paisagens, ecossistemas e comunidades, incentivando modalidades como trekking, cicloturismo e caiaque.
A Trilha Transcarioca, no Rio de Janeiro, é a primeira trilha de longo curso do país. São cerca de 180 km entre a Barra de Guaratiba e o Morro da Urca, passando por praias, florestas, o Corcovado e o Pão de Açúcar, com conexão a nove unidades de conservação.redetrilhas.
Já a Trilha Transmantiqueira ultrapassa 1.000 km e atravessa mais de 40 municípios em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, integrando mais de 30 unidades de conservação. É uma opção para quem busca montanhas, campos de altitude, vilarejos históricos e hospedagens rurais.
| Rota | Região | Destaque |
|---|---|---|
| Transcarioca | Rio de Janeiro (RJ) | 180 km entre Barra de Guaratiba e o Pão de Açúcar |
| Transmantiqueira | SP, MG e RJ | Mais de 1.000 km e mais de 30 unidades de conservação |
| Caminhos da Ibiapaba | Ceará e Piauí | 180 km por serras, cavernas e sítios arqueológicos |
| Amazônia Atlântica | Pará | Trilha que conecta floresta, comunidades e unidades de conservação |
| Caminho da Fé | SP e MG | Rota de peregrinação e caminhada com sinalização a cada 2 km |
Serra da Ibiapaba: o novo corredor do Nordeste
Entre o Ceará e o Piauí, os Caminhos da Ibiapaba formam uma trilha de 180 km que cruza três biomas, serras, cavernas, sítios arqueológicos e áreas preservadas. O roteiro foi lançado como parte da estratégia de conservação e desenvolvimento local, com participação do Parque Nacional da Serra da Capivara.
A região combina paisagens de serra, patrimônio arqueológico e comunidades rurais. O modelo prevê que moradores atuem como condutores, anfitriões, cozinheiros e artesãos, ampliando a renda local sem depender apenas de grandes empreendimentos turísticos.
Amazônia Atlântica e turismo ribeirinho
No Pará, a Trilha Amazônia Atlântica conecta municípios, unidades de conservação e comunidades por meio de caminhadas de longa distância. A iniciativa conta com ferramentas digitais, formação de moradores e planejamento para que o turismo chegue às comunidades antes da abertura do roteiro.
Na Amazônia, Silves, a cerca de 250 km de Manaus, abriga a Pousada Aldeia dos Lagos, primeiro empreendimento comunitário de ecoturismo da região. A renda é destinada à conservação dos sistemas de lagos e à melhoria da qualidade de vida das comunidades ribeirinhas.
Parques e territórios emergentes
O Vale do Peruaçu, em Januária (MG), reúne grutas, cachoeiras e uma rede de iniciativas de turismo sustentável conduzidas com comunidades locais. O projeto busca qualificar organizações comunitárias e orientar visitantes sobre como planejar a viagem de forma responsável.
No Cariri cearense, Nova Olinda oferece trilhas ecológicas, cicloturismo, gastronomia regional e o Memorial do Homem Kariri, em um território marcado por riqueza geológica, paleontológica e arqueológica. A iniciativa completa três décadas e integra moradores e visitantes em experiências ligadas à cultura e ao meio ambiente.
No Centro-Oeste, o Quilombo Kalunga, em Cavalcante (GO), fica na região da Chapada dos Veadeiros, mas oferece uma experiência distinta do turismo convencional. Reconhecido pela ONU como o primeiro território conservado pela comunidade no Brasil, o quilombo combina história, cultura quilombola e atrativos naturais.
Turismo comunitário: quem recebe, quem decide
O turismo de base comunitária coloca moradores no centro da operação: eles participam da definição dos roteiros, recebem visitantes, compartilham saberes e controlam parte da renda gerada. O Ministério do Turismo define o segmento como uma troca de vivências e experiências entre comunidades e turistas.
Na prática, isso significa dormir em hospedagens familiares, contratar guias locais, consumir alimentos da região e comprar artesanato diretamente dos produtores. Segundo o governo, as trilhas fortalecem hospedagem familiar, alimentação, artesanato e serviços de condução turística.
Como viajar com responsabilidade
- Contrate condutores e serviços de comunidades locais sempre que possível.
- Prefira hospedagens familiares, pousadas comunitárias e restaurantes regionais.
- Verifique regras, autorizações e capacidade de visitação dos parques antes de viajar.
- Não use fogo, não deixe resíduos e evite alimentar animais silvestres.
- Pesquise a melhor época, condição física exigida e segurança da trilha antes de iniciar percursos longos.
Tendência: experiência em vez de roteiro pronto
A demanda por turismo de experiência vem crescendo no Brasil, segundo o Ministério do Turismo. O viajante busca menos apenas paisagens e mais contato com pessoas, saberes e territórios — um movimento que favorece justamente os destinos comunitários e as rotas de longo curso.
Para o setor, o desafio é expandir a oferta sem repetir os erros do turismo massificado: preservar trilhas, limitar impactos, garantir segurança e assegurar que a renda fique, em boa medida, com quem vive e conserva o território.
