Alertas recuaram em maio e no acumulado desde agosto, mas exploração ilegal de madeira, avanço agropecuário, incêndios e degradação continuam ameaçando a maior floresta tropical do planeta
Por Redação Portal BR
15 de junho de 2026
A Amazônia brasileira perdeu aproximadamente 370 quilômetros quadrados de vegetação em maio de 2026, área equivalente a 37 mil hectares. Embora o número represente uma destruição significativa, os dados mais recentes não indicam aumento geral do desmatamento.
Segundo informações divulgadas com base no sistema de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, os alertas de desmatamento na Amazônia ficaram 61,4% abaixo do resultado registrado em maio de 2025. Foi o menor índice já observado para o mês de maio na série utilizada pelas autoridades ambientais.¹
No período de agosto de 2025 a maio de 2026, a redução chegou a 37,5% em comparação com os mesmos dez meses do ciclo anterior.
Os resultados mostram avanço no combate à derrubada da floresta, mas não significam que o problema esteja resolvido. Centenas de quilômetros quadrados continuam sendo eliminados, enquanto outras áreas sofrem degradação provocada por incêndios, retirada seletiva de madeira, garimpo, abertura de estradas e secas prolongadas.
Queda percentual não significa desmatamento zero
A redução dos alertas precisa ser analisada com cautela. Uma queda de 61,4% significa que a destruição foi menor do que no mesmo mês do ano anterior, mas não que tenha deixado de ocorrer.
Os 370 quilômetros quadrados identificados em maio representam uma extensão superior à área territorial de muitas cidades brasileiras. Cada região derrubada provoca perda de vegetação, fragmentação dos habitats, expulsão de animais e liberação do carbono armazenado nas árvores e no solo.
A meta anunciada pelo Brasil é eliminar o desmatamento até 2030. Para que isso ocorra, as reduções anuais precisarão ser mantidas e aprofundadas, inclusive durante a estação seca, quando historicamente aumentam a derrubada, as queimadas e a dificuldade de fiscalização.
Deter e Prodes possuem funções diferentes
Os números mensais utilizados pelas equipes de fiscalização são produzidos pelo sistema Deter, desenvolvido pelo Inpe. Sua função é localizar rapidamente alterações na cobertura vegetal e orientar operações do Ibama e de outros órgãos ambientais.
O Deter funciona como um sistema de alertas. Seus dados não representam a taxa anual definitiva do desmatamento.
A medição oficial é produzida pelo Prodes, também administrado pelo Inpe. O sistema analisa imagens de satélite com maior detalhamento e calcula a área de corte raso registrada entre agosto de um ano e julho do ano seguinte.
No ciclo encerrado em julho de 2025, o Prodes identificou aproximadamente 5.796 quilômetros quadrados desmatados na Amazônia Legal. O resultado representou queda de 11,08% e o menor índice em 11 anos.²
Mesmo sendo o melhor resultado desde 2014, a área destruída continua elevada e mostra a distância existente entre a situação atual e a promessa de desmatamento zero.
Degradação pode não aparecer como corte raso
O corte completo da vegetação é apenas uma das formas de destruição da floresta.
A exploração seletiva de madeira abre estradas clandestinas, derruba espécies de alto valor comercial e facilita a entrada de novos invasores. Depois da retirada das árvores mais valiosas, a área restante frequentemente é queimada e transformada em pastagem.
Em uma grande operação realizada em 2025 nos estados do Amazonas, Pará e Rondônia, agentes ambientais apreenderam o equivalente a mais de 5 mil caminhões de madeira, fecharam serrarias e aplicaram milhões de reais em multas.³
A retirada ilegal de madeira também pode ser escondida por documentos falsos ou por projetos de manejo utilizados para “esquentar” produtos extraídos de áreas protegidas.
Essa degradação nem sempre é contabilizada imediatamente como desmatamento por corte raso, mas reduz a capacidade da floresta de armazenar carbono, produzir umidade e resistir aos incêndios.
Incêndios tornam a floresta mais vulnerável
O fogo não faz parte do funcionamento natural da floresta amazônica úmida. A maioria dos incêndios é iniciada por ação humana, especialmente para limpar áreas anteriormente derrubadas ou renovar pastagens.
Durante períodos de seca extrema, as chamas escapam para áreas de floresta ainda em pé. O fogo mata árvores, abre o dossel e deixa o ambiente mais seco, aumentando a possibilidade de novos incêndios nos anos seguintes.
Forma-se, assim, um ciclo de degradação: a seca favorece o fogo, o fogo enfraquece a floresta e a floresta degradada se torna ainda mais suscetível à falta de chuva e às altas temperaturas.
Estudos e levantamentos ambientais alertam que a degradação provocada por incêndios, exploração madeireira e secas já atinge uma parcela expressiva da Amazônia e pode superar, em determinados períodos, os danos causados pelo corte raso.
Expansão agropecuária permanece como pressão
A transformação da floresta em áreas destinadas à produção agropecuária permanece entre os principais vetores do desmatamento.
Em muitos casos, o processo começa com a retirada da madeira comercial, seguida pela queima da vegetação restante e pela formação de pastagens. Posteriormente, essas terras podem ser revendidas ou destinadas a outras culturas.
Relatórios internacionais publicados em 2026 apontam que a expansão agrícola continua sendo o principal fator de perda de florestas tropicais no mundo. Também existem preocupações com mudanças em acordos privados que impediam a compra de soja cultivada em áreas recentemente desmatadas na Amazônia.⁴
A produção de alimentos não precisa depender da abertura de novas áreas. Especialistas defendem o aproveitamento de terras já desmatadas e degradadas, o aumento da produtividade e a rastreabilidade das cadeias de carne, soja e madeira.
Terras indígenas e áreas protegidas são barreiras
Terras indígenas, unidades de conservação e florestas públicas desempenham papel estratégico na manutenção da vegetação.
Quando essas áreas possuem fiscalização, demarcação e presença permanente do Estado, tornam-se barreiras contra grilagem, garimpo, exploração madeireira e ocupações ilegais.
Por outro lado, a ausência de regularização fundiária facilita a apropriação de terras públicas. Áreas são invadidas, desmatadas e utilizadas para tentar comprovar uma posse que não existia anteriormente.
Combater a destruição exige identificar os responsáveis financeiros, e não apenas os trabalhadores encontrados operando máquinas ou transportando madeira. As investigações precisam alcançar empresas, compradores, intermediários e proprietários que lucram com o desmatamento.
Impacto chega à agricultura e às cidades
A preservação da Amazônia não interessa apenas aos moradores da Região Norte.
A floresta libera grandes volumes de umidade na atmosfera, contribuindo para a formação de chuvas que alcançam outras regiões do Brasil. A alteração desse sistema pode afetar lavouras, reservatórios de água, geração hidrelétrica e abastecimento urbano.
A derrubada e as queimadas também liberam gases de efeito estufa, intensificando o aquecimento global. O desmatamento permanece entre as principais fontes das emissões brasileiras.
Quanto maior a temperatura, maior a possibilidade de secas, ondas de calor e incêndios intensos. Os efeitos ambientais, portanto, também se transformam em prejuízos econômicos e sociais.
Fiscalização precisa ser permanente
A queda registrada nos últimos meses mostra que políticas públicas, monitoramento por satélite e operações de fiscalização podem produzir resultados.
Entretanto, ações temporárias não são suficientes. O combate ao desmatamento exige orçamento, servidores, equipamentos, integração entre órgãos e punição efetiva aos responsáveis.
Também são necessárias alternativas econômicas para as populações locais. Bioeconomia, manejo sustentável, turismo comunitário, recuperação de áreas degradadas e valorização dos produtos da floresta podem gerar renda sem destruir a vegetação.
A proteção da Amazônia não deve ser tratada como obstáculo ao desenvolvimento. A própria floresta oferece serviços ambientais essenciais para a agricultura, a energia, o abastecimento de água e a estabilidade climática.
Redução precisa continuar
Os números mais recentes são positivos, mas não autorizam o Brasil a reduzir a vigilância.
Em apenas um mês, 370 quilômetros quadrados desapareceram. Ao mesmo tempo, extensas regiões continuam sofrendo com exploração ilegal, fogo e degradação.
O desafio agora é transformar uma queda temporária em tendência permanente. Para alcançar o desmatamento zero até 2030, será necessário impedir novas invasões, responsabilizar os financiadores dos crimes ambientais e criar oportunidades econômicas para quem mantém a floresta em pé.
A Amazônia ainda perde território todos os dias. A redução dos índices representa uma conquista, mas o verdadeiro resultado somente será alcançado quando a destruição deixar de fazer parte do modelo de ocupação e desenvolvimento da região.
