Tecnologia permite acompanhar o histórico dos animais, fortalece a inspeção veterinária e ajuda produtores e frigoríficos a atender às exigências dos mercados mais rigorosos
A pecuária brasileira está entrando em uma nova fase, na qual produzir carne de qualidade já não é suficiente. É preciso demonstrar, com informações confiáveis, onde o animal nasceu, por quais propriedades passou, quais vacinas recebeu, como foi alimentado e em que condições chegou ao frigorífico.
Nesse cenário, a rastreabilidade bovina deixa de ser apenas uma exigência burocrática e passa a ocupar posição estratégica na sanidade animal, na gestão das propriedades, na segurança dos alimentos e na abertura de mercados. Quando associada à tecnologia blockchain, ela ainda pode oferecer registros mais transparentes, verificáveis e resistentes a alterações posteriores.
O Brasil já possui o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, o SISBOV, utilizado para o controle das informações necessárias à certificação oficial de animais destinados, especialmente, a mercados que exigem rastreabilidade individual. O Ministério da Agricultura também desenvolve o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, o PNIB, com planejamento para o período de 2025 a 2032. A proposta é ampliar gradualmente a identificação individual, superando limitações do controle baseado apenas em lotes.
Da identificação do animal ao histórico completo
A rastreabilidade bovina começa pela atribuição de uma identificação única ao animal. Essa identidade pode estar vinculada a brincos convencionais, dispositivos eletrônicos, RFID, códigos numéricos ou outras tecnologias reconhecidas pelos programas sanitários.
A partir da identificação, o sistema constrói uma linha do tempo. Nascimento, propriedade de origem, vacinação, tratamentos veterinários, pesagens, alimentação, reprodução, compra, venda, transporte, mudança de propriedade, morte e abate podem ser registrados conforme a finalidade do programa.
Para o Ministério da Agricultura, a identificação individual possibilita localizar com rapidez animais afetados por doenças e seus possíveis contatos, além de acompanhar tratamentos, movimentações, quarentenas e estratégias de vacinação. O PNIB foi elaborado justamente para fortalecer a segurança alimentar, o controle sanitário e a capacidade de resposta às emergências.
A Organização Mundial de Saúde Animal define a rastreabilidade como a capacidade de acompanhar um animal ou grupo de animais durante todas as fases de sua vida. A entidade recomenda que a identificação e a rastreabilidade estejam sob responsabilidade das autoridades veterinárias, ainda que diferentes instituições participem da coleta e do tratamento das informações.
A importância para a inspeção veterinária
Para médicos-veterinários, fiscais agropecuários e responsáveis técnicos, uma base confiável de rastreabilidade funciona como uma ferramenta de investigação sanitária.
Quando surge uma suspeita de doença contagiosa, não basta examinar apenas o animal afetado. É necessário descobrir de onde ele veio, com quais animais teve contato, quais propriedades visitou e quais transportes foram realizados.
Com registros individualizados, a inspeção pode identificar mais rapidamente os animais expostos, delimitar áreas de risco, determinar quarentenas e evitar restrições desnecessárias sobre propriedades que não participaram da cadeia de transmissão.
A rastreabilidade também ajuda a verificar o cumprimento dos calendários de vacinação, acompanhar tratamentos, analisar períodos de carência de medicamentos veterinários e reunir evidências para auditorias. Informações organizadas permitem uma resposta mais direcionada e reduzem o tempo necessário para reconstruir o histórico sanitário.
A FAO ( Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) considera a rastreabilidade uma base dos sistemas de controle sanitário na produção de alimentos de origem animal, ligando saúde animal, saúde pública, segurança dos alimentos e acesso aos mercados. Movimentações formais e informais de animais estão entre os fatores que podem favorecer a disseminação de enfermidades, tornando o controle do trânsito uma parte essencial da defesa sanitária.
Controle de qualidade começa antes do frigorífico
A qualidade da carne não depende somente da inspeção realizada no momento do abate. Ela começa na genética, na alimentação, no manejo, na sanidade, no bem-estar e nas condições de transporte.
Um sistema de rastreabilidade pode reunir informações sobre peso, desenvolvimento, dieta, tratamentos, ocorrências sanitárias e desempenho produtivo. Isso permite comparar animais, identificar práticas que apresentam melhores resultados e corrigir falhas de manejo.
Para o pecuarista, o histórico individual ajuda na seleção de animais, no planejamento reprodutivo e na avaliação da produtividade. Para frigoríficos, cooperativas e compradores, os registros podem contribuir para programas de bonificação, classificação de carcaças e aquisição de animais que atendam a padrões específicos.
A FAO observa que sistemas de identificação apoiam o monitoramento da saúde, da produtividade, da movimentação e do comércio dos animais. Eles também podem auxiliar na seleção de exemplares com melhor desempenho e no aprimoramento da gestão do rebanho.
O que a blockchain acrescenta
Nos sistemas convencionais, os dados permanecem armazenados em bancos controlados por uma única organização, ou seja, centralizados em um único local, o que pode gerar perda irreversível dos dados, ou por acidentes ou por hackeamento. Já na blockchain, é introduzido um modelo de registros distribuído em milhares de servidores, nos quais cada lançamento recebe mecanismos de validação, referência temporal e ligação com registros anteriores.
Na prática, isso dificulta que uma informação seja apagada ou modificada sem deixar evidências. Uma vacinação registrada, por exemplo, pode permanecer associada à identidade do animal, à propriedade, ao responsável e à data do procedimento, na blockchain Arweave por exemplo, os dados ficam armazenados por 200 anos.
Revisões científicas sobre blockchain nas cadeias agroalimentares apontam transparência, imutabilidade, redundância, automação e compartilhamento controlado como algumas das características que podem fortalecer a rastreabilidade. A tecnologia pode ainda ser integrada a QR Codes, sensores, RFID e contratos inteligentes.
Entretanto, a blockchain não transforma automaticamente uma informação falsa em verdadeira. Se alguém cadastrar uma vacinação que não ocorreu ou associar o brinco ao animal errado, o sistema poderá preservar um dado incorreto.
Por isso, a tecnologia precisa estar acompanhada de identificação segura, treinamento, responsabilidade profissional, auditoria, inspeções presenciais e regras claras sobre quem pode incluir cada tipo de informação. A blockchain protege o histórico do registro, mas a qualidade inicial dos dados continua dependendo das pessoas, dos equipamentos e dos procedimentos adotados.
O mercado internacional exige provas
Os países importadores estão aumentando as exigências relacionadas à origem dos alimentos, à sanidade, à sustentabilidade e ao uso da terra.
A União Europeia inclui bovinos e produtos derivados entre as cadeias abrangidas pelo regulamento de produtos livres de desmatamento. Pelas datas atualmente divulgadas pela Comissão Europeia, as obrigações começarão a ser aplicadas em 30 de dezembro de 2026 para operadores de médio e grande porte e em 30 de junho de 2027 para a maior parte das micro e pequenas empresas.
A blockchain não é uma exigência obrigatória para todas as exportações. Ela é uma ferramenta que pode facilitar a comprovação da origem, a organização dos documentos e a apresentação de evidências aos compradores.
Para o Brasil, uma rastreabilidade mais completa pode ajudar a demonstrar que animais não passaram por propriedades com irregularidades ambientais, que cumpriram exigências sanitárias e que foram produzidos dentro de padrões verificáveis.
Isso reduz riscos para importadores, frigoríficos e redes varejistas. Também permite separar produtores regulares daqueles que tentam inserir animais de origem desconhecida ou irregular dentro da cadeia formal.
Emater Trace: tecnologia criada pela Arte Final
Dentro desse movimento de digitalização foi desenvolvido o Emater Trace, sistema brasileiro de rastreabilidade bovina criado pela empresa Arte Final.
A plataforma foi projetada para construir um passaporte digital individual para cada animal. O cadastro pode reunir identificadores como SISBOV, PNIB e RFID, além de informações sobre a propriedade, o produtor e o histórico dos eventos.
Entre os acontecimentos que podem integrar a linha do tempo estão nascimento, vacinação, dieta, transporte, compra, venda, exportação, morte e outras ocorrências relevantes. Cada animal recebe uma identificação própria e pode ser consultado por meio de QR Code em uma página pública.
Segundo a estrutura do projeto, os registros podem ser publicados automaticamente na rede descentralizada Arweave, formando uma camada permanente de comprovação. A proposta é que informações importantes não permaneçam apenas em um servidor convencional que possa ser alterado, perdido ou desativado.
O sistema possui áreas diferentes para administração e para produtores. O responsável pela propriedade pode cadastrar animais e eventos dentro das identificações autorizadas, enquanto a administração acompanha usuários, propriedades, créditos e publicações.
O passaporte público foi concebido para apresentar os dados relevantes do animal de maneira organizada, inclusive com opções de idiomas para facilitar consultas de compradores e parceiros internacionais. A Arte Final informa que atua desde 2000 no desenvolvimento de soluções digitais e atualmente trabalha com Web3, Arweave, armazenamento descentralizado, certificação blockchain e rastreabilidade de produtos.
Integração com os sistemas oficiais
O Emater Trace deve ser entendido como uma plataforma tecnológica complementar. Ele não substitui o SISBOV, o PNIB, a Guia de Trânsito Animal, os serviços de inspeção ou as certificações exigidas pelo Ministério da Agricultura.
Para que os registros tenham validade dentro de programas sanitários e comerciais oficiais, é necessária a integração com as normas, identificadores e procedimentos reconhecidos pelas autoridades competentes.
Essa interoperabilidade é um dos maiores desafios do setor. Sistemas privados, plataformas estaduais, frigoríficos, laboratórios, entidades certificadoras e órgãos públicos precisam trabalhar com padrões compatíveis. Caso contrário, o produtor será obrigado a preencher as mesmas informações repetidamente em diferentes plataformas.
O cenário ideal é aquele em que o dado é registrado uma única vez, verificado por quem possui competência e compartilhado de maneira segura com os participantes autorizados.
Tecnologia brasileira como ativo estratégico
Desenvolver essa tecnologia no Brasil é importante porque a pecuária nacional possui características que nem sempre são compreendidas por plataformas estrangeiras.
O país apresenta propriedades de diferentes tamanhos, longas distâncias, áreas com conectividade limitada e grande diversidade de sistemas de criação. Uma solução nacional pode ser adaptada ao trabalho em campo, à realidade dos pequenos produtores e às regras brasileiras.
O domínio da tecnologia também evita dependência completa de empresas internacionais para armazenar e interpretar informações estratégicas sobre o rebanho nacional.
Além disso, o desenvolvimento local gera conhecimento, qualificação profissional e oportunidades para empresas brasileiras nos setores de software, agronegócio, certificação, sensores, telecomunicações e segurança de dados.
O próprio Ministério da Agricultura reconhece a rastreabilidade como instrumento de competitividade, segurança alimentar e acesso a mercados. O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos representa uma oportunidade para que soluções públicas e privadas evoluam de maneira coordenada.
Do custo à valorização do produtor
A implantação da rastreabilidade exige investimento em brincos, leitores, internet, equipamentos, capacitação e tempo de lançamento das informações. Para que o sistema alcance pequenos e médios produtores, o processo precisa ser simples, acessível e compatível com a rotina da propriedade.
O produtor também precisa receber benefícios concretos. Bonificações, acesso a mercados, redução de perdas, melhora na gestão, facilidade para obter certificações e valorização dos animais são fatores capazes de transformar a rastreabilidade de obrigação em vantagem econômica.
Quando o consumidor consulta um QR Code e conhece a origem do produto, o trabalho realizado na propriedade se torna mais visível. O cuidado com alimentação, vacinação, bem-estar e sustentabilidade deixa de ser apenas uma afirmação publicitária e passa a contar com registros verificáveis.
Um novo passaporte para a pecuária
A rastreabilidade bovina em blockchain não resolve sozinha todos os problemas sanitários, ambientais e comerciais. Porém, pode formar uma infraestrutura confiável para conectar produtores, veterinários, transportadores, frigoríficos, compradores e consumidores.
O Emater Trace representa uma iniciativa brasileira nessa direção. Ao criar um passaporte digital permanente para o animal, o projeto procura valorizar o produtor responsável e ampliar a transparência da cadeia pecuária.
O avanço dessa tecnologia dependerá da qualidade dos dados, da integração com os sistemas oficiais e da adesão dos profissionais que atuam no campo. Se esses elementos forem reunidos, o Brasil poderá não apenas atender às novas exigências internacionais, mas também liderar o desenvolvimento de uma pecuária mais segura, eficiente e transparente.
