O principal obstáculo pode ser resumido como Custo Brasil: a combinação de impostos complexos, juros altos, infraestrutura deficiente, burocracia, insegurança jurídica e baixa qualificação profissional.
Em pesquisa da CNI com 1.002 empresários, 70% apontaram o cumprimento das obrigações tributárias como o maior problema do Custo Brasil. Em seguida apareceram a falta de mão de obra qualificada, com 62%; o financiamento, com 27%; e a insegurança jurídica e regulatória, com 24%. É importante observar que a CNI representa o setor industrial, portanto esses números mostram a percepção empresarial, não uma medição neutra de toda a economia.
Além do valor dos impostos, existe o custo de calcular, declarar, interpretar e discutir tributos diferentes nos âmbitos federal, estadual e municipal.
União, estados, municípios e Congresso construíram esse sistema ao longo de décadas. A reforma tributária pretende substituir tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por CBS e IBS, reduzir a tributação em cascata e diminuir disputas judiciais, entretanto, a longa transição até 2033 e a adaptação dos sistemas fiscais criam novos custos no curto prazo.
A taxa Selic estava em 14,25% ao ano após a reunião de junho de 2026. Isso encarece empréstimos para compra de máquinas, ampliação de fábricas, formação de estoques e capital de giro. Empresas menores sofrem ainda mais porque normalmente pagam taxas bem superiores à Selic.
Decisões do governo sobre gastos, arrecadação, dívida pública e credibilidade fiscal influenciam a inflação esperada e o custo dos juros. O governo pode contribuir para juros menores apresentando contas públicas previsíveis, evitando despesas sem financiamento permanente e reduzindo incertezas sobre a trajetória da dívida.
Rodovias ruins, dependência excessiva do transporte rodoviário, portos congestionados, poucas ferrovias e dificuldades de armazenagem aumentam o preço dos produtos brasileiros.
Segundo levantamento divulgado pela CNI, o Brasil investe aproximadamente 1,6% a 2% do PIB por ano em infraestrutura, enquanto a entidade calcula que seriam necessários cerca de 4%. Em 2024, aproximadamente 70,5% dos investimentos do setor vieram da iniciativa privada, demonstrando o peso crescente das concessões.
Cabe ao poder público planejar obras, conceder projetos viáveis, garantir segurança contratual, fiscalizar serviços e concluir investimentos, porém, o problema também envolve administrações estaduais e municipais.
A indústria encontra dificuldades para contratar técnicos em manutenção, automação, programação, soldagem, mecânica, eletrônica e operação de equipamentos modernos. O SENAI estima que o país precisará qualificar mais de 9,4 milhões de trabalhadores até 2028.
Isso reduz a produtividade, aumenta custos e atrasa a adoção de novas tecnologias.
A qualidade da educação básica, o ensino técnico e a articulação entre escolas e empresas dependem de políticas públicas. Entretanto, as próprias empresas também precisam investir em treinamento, formação contínua, gestão e melhores condições para reter profissionais.
Mudanças frequentes de regras, interpretações tributárias divergentes, demora em licenciamentos, disputas trabalhistas e decisões administrativas contraditórias dificultam o planejamento de longo prazo.
Uma fábrica pode levar anos para recuperar o investimento feito em máquinas e instalações. Quando as regras mudam continuamente, a empresa adia o projeto ou transfere o investimento para outro país.
Executivo, Congresso, agências reguladoras, estados, municípios e Judiciário participam desse ambiente, o governo federal deve ter a responsabilidade de coordenar simplificação, digitalização e estabilidade regulatória.
Parte da indústria opera com equipamentos antigos, baixa digitalização e pouco investimento em pesquisa. O Brasil também tem dificuldades para transformar conhecimento acadêmico em produtos comerciais e integrar empresas menores às cadeias tecnológicas.
Uma boa política industrial precisa exigir resultados: aumento de produtividade, exportações, inovação, redução de emissões e geração de empregos qualificados.
O atual governo tem responsabilidade principalmente quando:
- não transmite segurança sobre a evolução dos gastos e da dívida;
- demora a concluir obras ou concessões importantes;
- cria regras tributárias sem tempo suficiente para adaptação;
- utiliza crédito subsidiado e proteção comercial sem exigir produtividade;
- não melhora rapidamente a educação técnica;
- modifica normas econômicas de maneira imprevisível.
O governo possui grande responsabilidade pelo ambiente no qual a indústria trabalha, mas não é o único culpado. O setor privado também precisa modernizar a gestão, investir em tecnologia, treinar trabalhadores e competir sem depender permanentemente de proteção estatal.
Sem essas mudanças, a indústria brasileira continuará competitiva em alguns setores, mas enfrentará dificuldades para produzir bens tecnológicos, aumentar exportações e gerar empregos mais qualificados.
