Desigualdade no Brasil: quando o Estado, em vez de corrigir, amplia as diferenças

Desigualdade no Brasil: quando o Estado, em vez de corrigir, amplia as diferenças

O Coeficiente de Gini mostra que a renda continua fortemente concentrada; impostos sobre o consumo, privilégios fiscais, benefícios mal direcionados e serviços públicos desiguais ajudam a explicar como decisões estatais podem reproduzir o problema

A desigualdade brasileira costuma ser atribuída apenas ao mercado de trabalho, às diferenças de escolaridade ou à concentração histórica da propriedade. Esses fatores são importantes, mas não explicam tudo. O próprio Estado, que deveria reduzir as distâncias sociais, também pode ampliá-las quando cobra proporcionalmente mais de quem tem menos, concede vantagens a grupos organizados e oferece serviços públicos de qualidade muito diferente conforme a renda e o local de nascimento do cidadão.

Esse efeito aparece quando se observa o Coeficiente de Gini, indicador utilizado para medir a concentração de renda. O índice varia de zero a um: quanto mais próximo de zero, mais igualitária é a distribuição; quanto mais perto de um, maior a concentração.

Em 2025, o Gini do rendimento domiciliar por pessoa no Brasil ficou em 0,511, acima dos 0,504 registrados em 2024. Embora o resultado ainda tenha sido melhor que o de 2019, quando o índice chegou a 0,543, o avanço entre 2024 e 2025 interrompeu a trajetória recente de redução. A Região Sul permaneceu com o menor nível de desigualdade entre as grandes regiões do país.

O indicador não revela toda a concentração patrimonial, pois analisa principalmente os rendimentos captados pelas pesquisas domiciliares. Ainda assim, mostra uma realidade persistente: o crescimento econômico e a elevação da renda média não garantem que os ganhos sejam distribuídos de maneira equilibrada.

O Estado não é neutro na distribuição da renda

Toda decisão pública produz efeitos distributivos. Quando o governo cria um imposto, concede uma isenção, define uma aposentadoria, estabelece o salário de uma carreira pública ou decide onde construir uma escola, ele influencia quem ficará com uma parcela maior ou menor dos recursos disponíveis.

A intervenção estatal pode reduzir desigualdades. Transferências de renda, educação pública, saúde, salário mínimo, assistência social e investimentos em infraestrutura ajudam milhões de pessoas. Entretanto, o sentido contrário também existe: determinadas políticas retiram proporcionalmente mais dos pobres e entregam benefícios maiores aos grupos que já possuem renda, patrimônio e capacidade de influência.

Por isso, a discussão não deve ser resumida à oposição entre “mais Estado” e “menos Estado”. A questão central é qual Estado, financiado por quem e funcionando em benefício de quem.

Impostos sobre o consumo pesam mais sobre os pobres

Uma das principais formas pelas quais o poder público reproduz desigualdade está no sistema tributário. O Brasil historicamente arrecada uma parcela elevada de seus tributos por meio do consumo.

Impostos embutidos nos preços de alimentos, energia, roupas, produtos de higiene, transporte e outros bens são pagos por todos. Contudo, seu peso relativo é muito maior para as famílias pobres, que precisam utilizar quase toda a renda para consumir itens básicos.

Uma pessoa que recebe pouco pode comprometer praticamente todo o salário com produtos tributados. Quem possui renda elevada consome apenas uma parte do que ganha e consegue poupar, investir ou acumular patrimônio. Assim, mesmo que duas pessoas paguem a mesma tributação ao comprar determinado produto, o impacto sobre o orçamento de cada uma é muito diferente.

Estudos do Ipea classificam o sistema tributário brasileiro como regressivo: o gasto social contribui para diminuir a concentração econômica, enquanto a estrutura de impostos, especialmente os indiretos, atua em sentido contrário.

Levantamentos anteriores do instituto mostraram que famílias pobres comprometiam cerca de 30% da renda com impostos indiretos, enquanto o percentual entre os mais ricos ficava próximo de 12%. As proporções podem mudar ao longo do tempo, mas o mecanismo permanece: tributar fortemente o consumo tende a pesar mais sobre quem ganha menos.

Tributação direta corrige menos do que poderia

Impostos sobre renda e patrimônio poderiam compensar a regressividade da tributação sobre o consumo. No Brasil, porém, esse efeito redistributivo é limitado.

Estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico calculou que os tributos diretos reduziam a desigualdade de renda brasileira em aproximadamente 5%, enquanto a redução média entre os países da organização chegava a 12%.

Isso significa que o Estado brasileiro arrecada muito, mas reorganiza a renda de forma menos eficiente do que poderia. O problema não está apenas no tamanho da carga tributária, mas em sua composição.

Deduções, rendimentos isentos, tratamentos especiais e baixa tributação de determinadas formas de renda podem favorecer pessoas que já se encontram entre os grupos superiores da distribuição. Pesquisa do Ipea sobre benefícios no Imposto de Renda identificou vantagens que reduzem as alíquotas efetivas pagas por parcelas de maior renda.

Na prática, um trabalhador que recebe salário formal tem o imposto descontado regularmente. Já pessoas com acesso a estruturas empresariais, planejamento tributário e diferentes modalidades de rendimento podem encontrar formas legais de reduzir a tributação efetiva.

Renúncias fiscais também distribuem recursos públicos

Quando o governo concede isenção, redução de alíquota ou tratamento tributário favorecido, ele abre mão de uma receita que poderia financiar serviços públicos. Essa renúncia funciona como uma forma indireta de gasto.

O Tribunal de Contas da União estimou que os gastos tributários federais alcançariam R$ 544,5 bilhões em 2025, correspondentes a aproximadamente 4,4% do Produto Interno Bruto e a 24% da arrecadação federal projetada. O valor era superior a três vezes o orçamento previsto para o Bolsa Família naquele exercício.

Nem todo benefício fiscal é injustificado. O Simples Nacional, por exemplo, pode facilitar a sobrevivência de pequenos negócios; incentivos também podem estimular setores estratégicos, regiões pobres, inovação ou geração de empregos.

O problema surge quando os benefícios são mantidos sem metas claras, prazo de encerramento, transparência ou avaliação dos resultados. Nesse caso, o Estado pode transferir grandes volumes de recursos para setores organizados sem demonstrar retorno equivalente para a população.

Enquanto programas sociais passam por permanente debate sobre seus custos e beneficiários, parte das renúncias tributárias permanece distante da fiscalização cotidiana do cidadão.

Privilégios públicos criam uma desigualdade financiada por todos

Outro ponto sensível é a existência de diferenças muito elevadas dentro do próprio setor público. O Estado precisa remunerar adequadamente professores, profissionais de saúde, policiais, técnicos e servidores responsáveis pela prestação de serviços essenciais. A desigualdade aparece quando determinadas carreiras conquistam vantagens muito superiores às oferecidas a trabalhadores com qualificação semelhante no setor privado ou a outros funcionários públicos.

Estudo do Banco Mundial identificou um prêmio salarial médio no setor público brasileiro e concluiu que remunerações superiores às de profissionais comparáveis da iniciativa privada contribuem para a desigualdade, especialmente porque muitos dos beneficiários se encontram nas faixas superiores de renda. O efeito não ocorre igualmente em todo o funcionalismo: trabalhadores municipais de saúde e educação, por exemplo, costumam estar em situação diferente da elite das carreiras federais.

Uma análise internacional do Banco Mundial estimou um prêmio de aproximadamente 45% para novos integrantes de determinadas carreiras do serviço público federal brasileiro, em comparação com profissionais semelhantes do setor privado.

O problema, portanto, não é a existência do servidor público, mas a concentração de salários, adicionais, aposentadorias e proteções em grupos com maior capacidade de pressão política.

Quando o cidadão pobre paga impostos sobre alimentos e energia para financiar benefícios muito acima da realidade média do país, o Estado deixa de corrigir a desigualdade e passa a participar de sua produção.

Previdência pode proteger e também reproduzir diferenças

A Previdência Social possui enorme importância para a redução da pobreza, especialmente entre idosos e famílias de pequenos municípios. Benefícios do Regime Geral, aposentadorias rurais e o Benefício de Prestação Continuada sustentam milhões de pessoas e movimentam economias locais.

Ao mesmo tempo, nem todas as modalidades previdenciárias possuem o mesmo efeito distributivo. Estudos do Ipea indicaram que aposentadorias e pensões de alguns regimes próprios do funcionalismo apresentavam efeito regressivo, pois seus valores se concentravam em grupos de renda mais elevada.

A Previdência, portanto, reúne mecanismos muito diferentes. Um benefício básico pago a uma pessoa pobre tende a reduzir a desigualdade. Uma aposentadoria muito superior à renda média nacional, parcialmente financiada pelo conjunto da sociedade, pode ampliá-la.

O debate precisa diferenciar a proteção social destinada a evitar a pobreza dos privilégios previdenciários concentrados em parcelas reduzidas da população.

Pequenos negócios enfrentam um sistema criado para grandes estruturas

A desigualdade estatal também aparece no ambiente empresarial. Grandes companhias dispõem de departamentos jurídicos, contábeis e tributários capazes de aproveitar incentivos e administrar normas complexas. Microempresas e trabalhadores autônomos raramente possuem a mesma estrutura.

O sistema brasileiro de tributação do consumo foi marcado durante décadas por regras fragmentadas, obrigações diferentes entre estados e municípios e custos elevados de conformidade. A OCDE aponta que essa complexidade aumentou custos empresariais, distorceu cadeias produtivas e dificultou o comércio entre os estados. A reforma tributária aprovada em 2023 começou a ser implementada para enfrentar parte desses problemas.

Quando o Estado cria burocracia excessiva, a empresa maior consegue contratar especialistas. O pequeno empreendedor perde tempo, paga proporcionalmente mais para cumprir as obrigações ou permanece na informalidade.

Licenças demoradas, insegurança jurídica e regras pouco claras podem funcionar como barreiras de entrada. O resultado é a proteção indireta de quem já está estabelecido e a redução das oportunidades para quem tenta iniciar um negócio.

Serviços públicos diferentes produzem cidadãos com oportunidades diferentes

A ação estatal não se limita a impostos e transferências. A qualidade dos serviços públicos interfere diretamente na renda futura das pessoas.

Uma criança que frequenta escola bem estruturada, com professores estáveis, internet, biblioteca e atividades complementares começa a vida em condição diferente daquela que estuda em um prédio precário e enfrenta interrupções constantes. O mesmo ocorre com saúde, saneamento, transporte e segurança.

Duas pessoas podem possuir formalmente os mesmos direitos, mas receber serviços completamente diferentes conforme o município, o bairro ou a região onde vivem.

A desigualdade de acesso gera um ciclo. Famílias com maior renda pagam escola, plano de saúde, transporte e segurança privados. As famílias pobres dependem integralmente da qualidade do serviço oferecido pelo Estado. Quando esse serviço falha, quem já possui menos recursos sofre o impacto maior.

O Estado também é parte da solução

Apontar a responsabilidade estatal pela desigualdade não significa negar os efeitos positivos das políticas públicas. Seria incorreto afirmar que toda intervenção governamental amplia a concentração.

Estudos sobre o Brasil mostram que gastos com saúde e educação possuem forte efeito redistributivo. Uma avaliação reunida pelo Ipea concluiu que esses serviços responderam por parcela majoritária da redução da desigualdade promovida pela política fiscal analisada.

Transferências de renda, ampliação do acesso à educação e políticas como o Bolsa Família também contribuíram historicamente para a diminuição da pobreza e da desigualdade brasileira.

Isso revela uma aparente contradição: o mesmo Estado que reduz desigualdades por meio da escola pública, do SUS e da transferência de renda pode recriá-las por meio da tributação regressiva, dos privilégios e das renúncias mal avaliadas.

O resultado final depende de qual força é maior.

Não basta arrecadar mais

O Brasil frequentemente discute a desigualdade como se a única solução fosse elevar a arrecadação ou ampliar despesas. Entretanto, um Estado que cobra de maneira injusta e distribui recursos de forma desigual pode aumentar seu tamanho sem resolver o problema.

Uma política realmente redistributiva exige mudanças na qualidade da intervenção pública:

  • reduzir o peso dos tributos sobre o consumo essencial;
  • aumentar a progressividade sobre renda e patrimônio;
  • revisar benefícios fiscais sem resultados comprovados;
  • eliminar supersalários e privilégios incompatíveis com a realidade nacional;
  • proteger aposentadorias básicas e corrigir benefícios regressivos;
  • melhorar a qualidade da educação, da saúde e da infraestrutura nas regiões pobres;
  • simplificar normas para pequenos negócios e novos empreendedores;
  • divulgar quem recebe benefícios públicos e quais resultados entrega à sociedade.

Não se trata de enfraquecer serviços essenciais, mas de impedir que o poder estatal seja capturado por grupos capazes de transformar influência política em vantagem econômica.

Quando a desigualdade nasce da lei

Parte da desigualdade surge das diferenças de produtividade, formação e oportunidades existentes na sociedade. Outra parte, porém, é criada ou protegida por decisões legais.

Uma isenção, uma reserva de mercado, uma aposentadoria especial, uma burocracia que impede concorrentes ou uma escola pública abandonada não são fenômenos naturais. São resultados de escolhas políticas.

O Coeficiente de Gini mostra o resultado final da distribuição de renda, mas não indica sozinho como ela foi produzida. Para compreender a desigualdade brasileira, é necessário observar quem paga os impostos, quem recebe os benefícios e quem consegue influenciar as regras.

O Estado pode ser o principal instrumento de correção das injustiças sociais. Mas, quando atua de forma regressiva, transforma desigualdade econômica em desigualdade institucional: quem possui maior renda e organização obtém proteção, enquanto o cidadão comum financia o sistema sem receber serviços proporcionais.

O verdadeiro enfrentamento da concentração de renda não depende apenas de aumentar ou reduzir o Estado. Depende de torná-lo menos capturável, mais transparente e igualmente submetido ao interesse público. No Brasil, combater a desigualdade significa também impedir que ela continue sendo produzida, financiada e legitimada pelo próprio poder estatal.