IPCA avançou 0,58% em maio, pressionado por alimentos e energia elétrica; resultado dificulta novos cortes da Selic, enquanto governo lança crédito para entregadores comprarem motos e bicicletas elétricas
Da Redação Portal BR
BRASÍLIA — A inflação brasileira voltou ao centro das preocupações econômicas nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, considerado a inflação oficial do país, subiu 0,58% em maio e acumula alta de 4,72% em 12 meses, acima do limite superior da faixa de tolerância da meta definida para o Banco Central.
O resultado mensal ficou abaixo dos 0,67% registrados em abril, mas superou as expectativas de parte do mercado financeiro. O avanço foi provocado principalmente pela alimentação, pelas contas de energia elétrica e pelos gastos com saúde e cuidados pessoais.
Os novos números foram divulgados poucos dias antes da reunião do Comitê de Política Monetária, marcada para terça e quarta-feira, dias 16 e 17 de junho. A persistência das pressões sobre os preços aumenta a possibilidade de o Banco Central interromper ou reduzir o ritmo de queda da taxa Selic, atualmente em 14,5% ao ano.
Alimentos respondem por metade da inflação do mês
O grupo alimentação e bebidas subiu 1,33% em maio e respondeu por aproximadamente metade do impacto total do IPCA.
A alimentação consumida dentro de casa avançou 1,65%. Entre os principais aumentos registrados pelo IBGE estão a batata-inglesa, com alta de 44,69%; o tomate, com 20,62%; a cebola, com 16,80%; e as carnes, com 1,39%.
A redução da oferta de alguns produtos e a elevação dos custos de transporte contribuíram para os reajustes. O aumento dos combustíveis observado em meses anteriores também afetou o valor dos fretes e a distribuição de alimentos.
Na direção contrária, o café moído recuou 2,38%, enquanto as frutas apresentaram queda média de 0,70%.
O comportamento dos alimentos possui peso especial no orçamento das famílias de renda mais baixa, que destinam uma parcela maior dos rendimentos à alimentação. Mesmo quando o índice geral desacelera, aumentos concentrados em produtos básicos podem reduzir o poder de compra.
Energia elétrica sobe 3,67%
O grupo habitação avançou 1,22% em maio, depois de registrar alta de 0,63% em abril.
A energia elétrica residencial subiu 3,67% e foi o item com o maior impacto individual sobre a inflação, respondendo por 0,15 ponto percentual do IPCA.
O aumento refletiu reajustes tarifários em diferentes regiões e a vigência da bandeira amarela, que acrescentou cobrança adicional às contas de luz.
A elevação da energia possui efeito que vai além das despesas domésticas. Comércio, indústria, restaurantes, hotéis e prestadores de serviços também enfrentam custos maiores, que podem ser incorporados aos preços pagos pelos consumidores.
Saúde e cuidados pessoais tiveram alta de 0,90%. Os artigos de higiene pessoal subiram 1,95%, com destaque para os perfumes, enquanto os planos de saúde avançaram 0,50%.
Combustíveis ajudam a conter índice
Os transportes foram o único dos nove grupos pesquisados pelo IBGE que apresentaram queda em maio, com recuo de 0,46%.
Os combustíveis ficaram 1,95% mais baratos. O etanol caiu 6,20%, o óleo diesel recuou 2,34% e a gasolina apresentou redução de 1,46%.
A queda da gasolina exerceu o maior impacto negativo individual do mês e ajudou a impedir uma inflação ainda mais elevada.
O comportamento dos combustíveis, porém, continua cercado de incertezas devido às tensões internacionais e às oscilações do petróleo. Uma nova alta nas cotações internacionais poderia voltar a pressionar transportes, produção agrícola, indústria e distribuição de mercadorias.
Inflação em 12 meses chega a 4,72%
Com o resultado de maio, o IPCA acumula alta de 3,20% nos cinco primeiros meses de 2026.
A inflação em 12 meses passou de 4,39% em abril para 4,72% em maio. O número ultrapassou o teto de 4,5% da faixa de tolerância adotada para a meta de 3%.
O resultado também ficou acima da mediana das projeções reunidas pela Reuters, que apontava inflação mensal de 0,53% e taxa anual de 4,66%.
A superação da faixa não significa que todos os preços tenham aumentado na mesma intensidade. O IPCA representa a média de uma cesta de produtos e serviços consumidos pelas famílias, com pesos diferentes para alimentação, moradia, transporte, saúde, educação e outras despesas.
A percepção individual pode ser maior ou menor, dependendo dos produtos e serviços mais consumidos por cada família.
Copom enfrenta decisão mais difícil
O Banco Central começou a reduzir a Selic em março e realizou dois cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual, levando a taxa de 15% para 14,5% ao ano.
A inflação mais resistente, entretanto, diminuiu o espaço para novos cortes.
A Selic elevada ajuda a controlar os preços ao reduzir a demanda, mas também encarece empréstimos, financiamentos, cartões de crédito e capital de giro.
Para as famílias, juros altos dificultam compras parceladas de automóveis, imóveis, eletrodomésticos e outros bens de maior valor. Para as empresas, o custo do crédito limita investimentos, contratação de funcionários, formação de estoques e expansão da produção.
Analistas vêm reduzindo as projeções para a queda dos juros ao longo de 2026. A estimativa mais recente do mercado indica Selic de 13,5% no encerramento do ano, acima da expectativa registrada na semana anterior.
Economia cresceu no início do ano
O desafio do Banco Central ocorre em um momento de expansão da atividade econômica.
O Produto Interno Bruto cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação aos três últimos meses de 2025. Em 12 meses, o avanço foi de 2%.
A agropecuária cresceu 2%, a indústria avançou 1% e os serviços apresentaram expansão de 0,5%.
O consumo das famílias aumentou 1%, enquanto os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo, cresceram 3,5%.
Uma economia mais aquecida favorece emprego, renda e arrecadação, mas também pode aumentar a pressão sobre os preços quando a demanda cresce mais rapidamente que a capacidade de produção.
Construção fica mais cara
Outro indicador divulgado nesta sexta-feira mostrou aumento nos custos da construção civil.
O Índice Nacional da Construção Civil avançou 0,36% em maio. A Região Sul apresentou a maior variação regional, com alta de 0,44%, enquanto o Paraná teve aumento de 0,65%.
O avanço afeta os orçamentos de obras públicas e privadas, reformas residenciais e novos empreendimentos.
A elevação dos custos pode aumentar o preço final dos imóveis e exigir revisões em contratos, financiamentos e projetos que possuem prazos mais longos.
Apesar do aumento mensal, o comportamento da construção dependerá da trajetória dos materiais, dos salários e dos juros. O crédito imobiliário e empresarial permanece sensível às decisões do Banco Central.
Governo lança crédito para entregadores
Em outra frente econômica, o governo federal lançou nesta sexta-feira o programa Move Brasil – Entregadores e Motoapp.
A iniciativa oferece financiamento para entregadores, motociclistas de aplicativo, motofretistas, mototaxistas e ciclistas profissionais comprarem motos, motonetas, ciclomotores e bicicletas elétricas novos.
Os financiamentos terão prazo de até 48 meses e carência de dois meses para o início dos pagamentos.
A taxa será de 12,5% ao ano para homens e 11,5% para mulheres. O programa contará com garantia do Fundo Garantidor de Operações.
Para participar, trabalhadores de plataformas precisarão comprovar pelo menos seis meses de atividade e um mínimo de 100 corridas ou entregas. Profissionais contratados formalmente deverão possuir pelo menos seis meses de vínculo na mesma empresa.
O cadastro começou nesta sexta-feira, mas a aprovação para participar não garante automaticamente o crédito. Cada pedido ainda dependerá da análise dos bancos.
Os financiamentos poderão ser contratados a partir de 13 de julho na Caixa Econômica Federal, no Banco do Brasil e em outras instituições habilitadas.
Crédito pode estimular indústria e consumo
O programa pretende facilitar a aquisição dos veículos utilizados como instrumento de trabalho e, ao mesmo tempo, estimular a indústria nacional.
Poderão ser financiadas motocicletas flex de até 160 cilindradas, motos elétricas, motonetas, ciclomotores, bicicletas elétricas e outros veículos que atendam às regras de potência e produção nacional.
Uma operação de R$ 21 mil teria prestação estimada em aproximadamente R$ 552, segundo a simulação apresentada pelo governo.
Embora as taxas sejam inferiores à Selic, o financiamento representa um compromisso de longo prazo. Os trabalhadores deverão considerar renda média, combustível, manutenção, seguro e possíveis oscilações na demanda antes da contratação.
Cenário mistura crescimento e pressão sobre preços
Os indicadores desta sexta-feira mostram uma economia que continua crescendo, mas enfrenta dificuldades para controlar a inflação.
A atividade econômica, o emprego e o consumo mantêm algum dinamismo. Ao mesmo tempo, alimentos, energia, saúde e custos da construção pressionam famílias e empresas.
A queda dos combustíveis ofereceu alívio em maio, mas as incertezas internacionais continuam capazes de alterar rapidamente esse cenário.
O principal desafio será reduzir a inflação sem provocar uma desaceleração excessiva da economia.
A decisão do Banco Central na próxima semana deverá indicar como a autoridade monetária pretende equilibrar esses dois objetivos e se ainda existe espaço para diminuir os juros durante o segundo semestre.
