Arquivos de datas: 13 de junho de 2026

Estatal perdeu R$ 8,46 bilhões em 2025 e outros R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre de 2026; TCU alerta para risco ao Tesouro, enquanto denúncias de irregularidades administrativas, contábeis e possíveis fraudes são investigadas

Da Redação Portal BR

BRASÍLIA — A crise dos Correios alcançou um dos momentos mais graves de sua história. A estatal encerrou 2025 com prejuízo líquido de R$ 8,46 bilhões e acumulou mais R$ 3,16 bilhões de perdas somente entre janeiro e março de 2026. O patrimônio líquido negativo chegou a R$ 16,28 bilhões no final do primeiro trimestre deste ano.

O Tribunal de Contas da União classificou a situação registrada no encerramento de 2025 como “insolvência técnica” e alertou que a empresa apresenta deterioração severa de sua capacidade de pagamento. O funcionamento da estatal passou a depender de empréstimos bilionários garantidos pela União, aumentando o risco de que parte da conta seja transferida ao Tesouro Nacional e, em última análise, aos contribuintes.

A crise financeira é acompanhada por questionamentos sobre a qualidade da gestão, os controles contábeis, a supervisão exercida pelo governo federal e possíveis irregularidades. Uma fiscalização aprovada no Senado reúne denúncias de ocultação de passivos, nomeações políticas, retenção de repasses, funcionamento de agências paralelas e comercialização irregular de etiquetas postais. As acusações estão sob apuração e ainda não representam condenações nem comprovação definitiva de crimes.

Prejuízo quase dobra no início de 2026

Os Correios tiveram prejuízo líquido de R$ 3,158 bilhões no primeiro trimestre de 2026. No mesmo período de 2025, a perda havia sido de R$ 1,726 bilhão. O aumento foi de aproximadamente 83%.

A receita líquida recuou de R$ 3,95 bilhões para R$ 3,86 bilhões. Mesmo com a redução de parte dos custos operacionais, as despesas gerais e administrativas subiram de R$ 1,23 bilhão para R$ 2,27 bilhões. As despesas financeiras saltaram de R$ 283 milhões para R$ 985 milhões.

O patrimônio líquido, que já estava negativo em R$ 13,16 bilhões no fim de 2025, caiu para R$ 16,28 bilhões em março de 2026. Isso significa que, contabilmente, as obrigações da empresa superavam seus ativos em mais de R$ 16 bilhões.

A expressão “quebra dos Correios” é utilizada politicamente para descrever essa situação, mas não significa que a empresa tenha declarado falência ou interrompido suas atividades. Como estatal integralmente controlada pela União e responsável pelo serviço postal universal, os Correios continuam funcionando. O termo técnico utilizado pelo TCU é insolvência técnica.

Rombo de 2025 superou R$ 8,4 bilhões

As demonstrações contábeis mostram que o prejuízo de 2025 alcançou R$ 8,457 bilhões, mais de três vezes o resultado negativo reapresentado de R$ 2,447 bilhões em 2024.

A receita líquida caiu de R$ 18,91 bilhões para R$ 16,65 bilhões. Ao mesmo tempo, as despesas gerais e administrativas aumentaram de R$ 4,59 bilhões para R$ 6,29 bilhões. O resultado financeiro negativo passou de R$ 380 milhões para R$ 1,27 bilhão.

Os Correios encerraram 2025 com prejuízos acumulados de R$ 12,99 bilhões e patrimônio líquido negativo de R$ 13,16 bilhões. O balanço também registrou R$ 13,65 bilhões em passivos circulantes, contra R$ 7,53 bilhões em ativos de curto prazo.

Resultados pioraram durante o atual governo

Os Correios já haviam entrado no vermelho em 2022, último ano do governo anterior, quando registraram prejuízo de R$ 767,58 milhões. Em 2023, primeiro ano do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a perda ficou em R$ 596,63 milhões.

A deterioração acelerou posteriormente:

  • 2023: prejuízo de aproximadamente R$ 596,6 milhões;
  • 2024: prejuízo reapresentado de R$ 2,45 bilhões;
  • 2025: prejuízo de R$ 8,46 bilhões;
  • primeiro trimestre de 2026: prejuízo de R$ 3,16 bilhões.

Os resultados mostram que o problema não começou exclusivamente no atual governo, mas ganhou proporções muito maiores durante a administração Lula. Entre 2023 e março de 2026, a soma dos resultados negativos chega a aproximadamente R$ 14,7 bilhões.

O governo Lula retirou os Correios do programa de privatizações em 2023 e decidiu manter a empresa sob controle integral da União. Com isso, a administração federal também assumiu a responsabilidade política por recuperar a estatal, modernizar sua operação e impedir que os prejuízos se transformassem em uma despesa permanente para o Tesouro.

Empresa perdeu espaço nas encomendas internacionais

O TCU identificou uma redução expressiva da participação dos Correios no mercado de encomendas internacionais.

Até dezembro de 2023, a estatal possuía 99% desse segmento. A participação caiu para 93% em agosto de 2024, 66% em dezembro, 52% em janeiro de 2025 e apenas 31% em junho daquele ano.

Entre agosto e dezembro de 2024, as receitas com entrega de mercadorias ficaram R$ 2,2 bilhões abaixo do previsto. De janeiro a setembro de 2025, a redução chegou a mais R$ 1,56 bilhão, segundo o Tribunal.

A abertura do mercado para operadores privados, a concorrência das plataformas de comércio eletrônico e as alterações nas regras das remessas internacionais contribuíram para a perda de receita. Os Correios também enfrentam a redução estrutural do envio de cartas e documentos físicos.

Esses fatores explicam parte da crise, mas não eliminam as cobranças sobre a gestão. Uma empresa com obrigação de presença nacional precisa antecipar mudanças tecnológicas, desenvolver novas fontes de receita e controlar despesas antes que a queda do mercado tradicional comprometa sua sobrevivência.

Precatórios e ações trabalhistas aumentam despesas

Os passivos judiciais tiveram peso elevado nos resultados.

Em 2025, as despesas com precatórios e Requisições de Pequeno Valor chegaram a R$ 2,48 bilhões, ante R$ 1,13 bilhão no ano anterior. O saldo de precatórios e RPVs a pagar terminou o exercício em R$ 2,76 bilhões.

No primeiro trimestre de 2026, os Correios atribuíram R$ 1,4 bilhão do resultado negativo a passivos judiciais e precatórios. Segundo a empresa, esse valor representou 44% do prejuízo do período.

Os gastos com pessoal também permanecem elevados. Em 2025, reajustes salariais, plano de saúde e despesas relacionadas ao Programa de Desligamento Voluntário aumentaram os custos da empresa.

A estatal precisa manter atendimento até em municípios e áreas onde a operação não é comercialmente rentável. Essa obrigação social possui importância para a integração nacional, mas exige planejamento, produtividade e mecanismos transparentes para financiar o serviço universal.

Empréstimos bilionários sustentam o caixa

No final de 2025, os Correios contrataram uma operação de crédito de R$ 12 bilhões, garantida pela União.

O planejamento analisado pelo TCU também considerava a entrada de outros R$ 8 bilhões em 2026, totalizando até R$ 20 bilhões em recursos para a recuperação financeira.

A primeira proposta de R$ 20 bilhões foi rejeitada pelo Tesouro Nacional porque previa juros de 20% ao ano, acima do limite aceito pelo governo para fornecer garantia. Uma segunda proposta reduziu o valor inicial para R$ 12 bilhões.

O TCU alertou que os Correios dependem desses empréstimos para pagar tributos, salários e fornecedores. Caso a empresa não consiga cumprir as obrigações, a garantia da União poderá ser acionada.

O risco não está limitado ao valor principal. No primeiro trimestre de 2026, os Correios já registraram R$ 437,6 milhões de crescimento no saldo de empréstimos de longo prazo, além de despesas relevantes com juros, comissões e liquidação antecipada de operações.

TCU aponta fragilidades no plano de recuperação

O plano de reestruturação dos Correios prevê um Programa de Desligamento Voluntário para até 15 mil empregados, fechamento de aproximadamente mil agências consideradas deficitárias ou sobrepostas, mudanças no plano de saúde, venda de imóveis e parcerias com empresas privadas.

O Tribunal de Contas, porém, concluiu que as premissas operacionais e econômico-financeiras não estavam suficientemente demonstradas. Também foram encontradas fragilidades nos mecanismos de acompanhamento e avaliação do plano.

O TCU considerou incerta a capacidade das receitas previstas de recuperar a sustentabilidade da empresa. O Tribunal alertou que poderão ser necessários novos empréstimos ou aportes federais ainda em 2026.

Caso a recuperação fracasse, os Correios poderão se tornar uma estatal dependente, passando a necessitar regularmente de recursos orçamentários para financiar suas atividades.

O Tribunal determinou que a empresa estabeleça metas mensuráveis, apresente indicadores de resultado e aperfeiçoe o controle das ações. O Ministério das Comunicações também recebeu a determinação de criar mecanismos mais eficientes de supervisão.

Denúncias falam em corrupção, aparelhamento e fraudes

Em setembro de 2025, a Comissão de Fiscalização e Controle do Senado aprovou uma investigação sobre possíveis irregularidades na gestão dos Correios, com apoio do TCU.

A proposta de fiscalização reuniu acusações relacionadas a:

  • possível ocultação de passivos e problemas contábeis;
  • suspensão ou demora na divulgação de demonstrações financeiras;
  • dívidas e repasses envolvendo o Postalis e o Postal Saúde;
  • aumento de determinados gastos durante o déficit;
  • possíveis nomeações políticas sem critérios técnicos;
  • desistência de ações judiciais potencialmente prejudiciais;
  • inadimplência com fornecedores e transportadoras;
  • suposto funcionamento de agências paralelas;
  • venda irregular de etiquetas postais fora dos sistemas oficiais.

Essas acusações justificam investigação rigorosa, mas não podem ser apresentadas como crimes definitivamente comprovados.

Até o momento, os documentos mais recentes do TCU citados nesta matéria apontam insolvência, falhas de planejamento, risco fiscal e fragilidades de controle. Eles não concluem que a atual direção ou o presidente Lula tenham cometido crime de gestão fraudulenta.

A fiscalização do Senado deverá reunir documentos, depoimentos e informações dos órgãos de controle. Somente a conclusão das apurações poderá determinar se houve corrupção, fraude, negligência administrativa ou decisões empresariais malsucedidas.

Auditoria fez ressalva sobre as contas

O relatório dos auditores independentes sobre as demonstrações de 2025 apresentou uma opinião com ressalva.

A auditoria identificou avanços na classificação dos riscos judiciais, mas afirmou que ainda existiam pontos a melhorar nos critérios e controles internos. Por isso, os auditores não conseguiram concluir integralmente se o saldo de R$ 6,36 bilhões registrado para processos judiciais e precatórios estava adequado.

Os balanços de 2023 e 2024 também precisaram ser reapresentados, principalmente por causa da revisão de provisões trabalhistas relacionadas à acumulação de adicionais pagos a empregados. A auditoria considerou adequada a reapresentação, mas o episódio reforçou as dúvidas sobre a qualidade anterior dos controles contábeis.

Uma ressalva de auditoria não comprova fraude. Ela indica que existe uma área relevante em que os auditores não obtiveram segurança suficiente para validar integralmente os valores apresentados.

Em uma empresa com passivos bilionários e garantia financeira da União, essa limitação exige transparência máxima e correção imediata dos controles.

Governo federal precisa responder pela supervisão

Os Correios são vinculados ao Ministério das Comunicações e pertencem integralmente à União. Embora as decisões operacionais sejam tomadas pela diretoria e pelos conselhos da estatal, o governo federal possui responsabilidade pela supervisão, nomeação dos administradores e acompanhamento da sustentabilidade financeira.

A crise não pode ser tratada apenas como consequência inevitável da concorrência, das ações trabalhistas ou das transformações tecnológicas.

Esses fatores são reais, mas cabia à gestão antecipar riscos, diversificar receitas, controlar contratos, modernizar a operação e apresentar um plano de recuperação tecnicamente verificável.

A continuidade de prejuízos bilionários, acompanhada de empréstimos garantidos pela União, transforma um problema empresarial em um risco fiscal nacional.

Sociedade pode terminar pagando a conta

Os Correios possuem relevância social e atendem regiões onde empresas privadas não têm interesse econômico. A preservação do serviço postal não significa, porém, aceitar prejuízos ilimitados ou falta de responsabilização.

Caso os empréstimos não sejam pagos, a União poderá ser obrigada a honrar as garantias. Caso a estatal se torne dependente, recursos do orçamento poderão ser necessários todos os anos para financiar salários, fornecedores e operações.

Isso reduziria o dinheiro disponível para saúde, educação, segurança, infraestrutura e outras políticas públicas.

O governo Lula precisa apresentar resultados, não apenas novos financiamentos. A direção dos Correios deve demonstrar de forma transparente como cada medida reduzirá despesas, recuperará receitas e impedirá que a empresa volte a pedir socorro.

Sem recuperação operacional, fiscalização rigorosa e responsabilização por eventuais irregularidades, os empréstimos poderão apenas adiar a crise — transferindo ao contribuinte uma conta que continua crescendo.


https://www.portalbr.com.br/correios-entram-em-insolvencia-tecnica-prejuizo-dispara-e-gestao-fica-sob-investigacao/
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