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Alta dos alimentos, crédito caro e incertezas externas tornam mais difícil a decisão sobre a taxa Selic

Por Redação Portal BR
Brasília, 16 de junho de 2026

O Comitê de Política Monetária do Banco Central iniciou nesta terça-feira, 16 de junho, uma das reuniões mais difíceis do atual ciclo econômico. De um lado, famílias e empresas enfrentam juros elevados, que encarecem empréstimos, financiamentos e investimentos. Do outro, a inflação voltou a superar o limite de tolerância estabelecido para a meta oficial.

A decisão sobre a taxa Selic será divulgada nesta quarta-feira, dia 17. A expectativa predominante entre economistas é de uma redução limitada, de 0,25 ponto percentual, levando os juros básicos dos atuais 14,50% para 14,25% ao ano.

A previsão, entretanto, não representa uma decisão antecipada. O Banco Central poderá manter a taxa caso considere que os riscos inflacionários aumentaram desde a última reunião.

Maioria dos economistas espera novo corte

Pesquisa realizada entre os dias 12 e 15 de junho com 45 economistas mostrou que 41 esperam uma redução de 0,25 ponto percentual. Apenas quatro projetam a manutenção da Selic em 14,50%.

Caso a previsão seja confirmada, será o terceiro corte consecutivo de mesma intensidade. O Banco Central iniciou a redução dos juros em março, depois de manter a Selic em 15% ao ano durante o segundo semestre de 2025.

Mesmo com três cortes, a taxa permaneceria em nível elevado. A redução acumulada seria de apenas 0,75 ponto percentual, insuficiente para produzir uma queda imediata e generalizada nas taxas cobradas dos consumidores.

Os bancos consideram, além da Selic, o risco de inadimplência, os custos operacionais, os impostos, as garantias e a situação financeira de cada cliente.

Inflação ultrapassa o limite de tolerância

A principal dificuldade para o Banco Central está na inflação.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo subiu 0,58% em maio. No acumulado de 12 meses, o indicador avançou de 4,39% para 4,72%.

A meta central é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Isso significa que o limite superior é de 4,5%.

Com o resultado de maio, a inflação voltou a ficar acima desse teto.

A situação reduz o espaço para cortes mais intensos nos juros. Caso o Banco Central diminua a Selic rapidamente enquanto os preços continuam pressionados, poderá estimular o consumo e dificultar a convergência da inflação para a meta.

Alimentos pesam no orçamento

O grupo de alimentação e bebidas subiu 1,33% em maio e esteve entre os principais responsáveis pela aceleração do custo de vida.

O impacto é maior sobre as famílias de baixa renda, que destinam uma parcela mais elevada de seus recursos à compra de alimentos.

Mesmo quando outros grupos apresentam estabilidade ou redução, aumentos em produtos consumidos diariamente são rapidamente percebidos nos supermercados, padarias, restaurantes e feiras.

Os transportes registraram queda de 0,46% no mês, ajudando a impedir uma inflação ainda mais elevada.

Para o consumidor, porém, a redução em uma categoria não compensa necessariamente a pressão em outra. Cada família possui um padrão diferente de despesas e pode sentir um aumento superior ao índice médio.

Economia cresceu 1,1% no primeiro trimestre

A decisão do Copom também considera o ritmo da atividade econômica.

O Produto Interno Bruto cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026, em comparação com os três meses anteriores. Em relação ao mesmo período de 2025, o avanço foi de 1,8%.

O resultado mostrou recuperação depois de um segundo semestre de 2025 marcado por baixo crescimento.

O consumo das famílias aumentou 1%, enquanto os investimentos, medidos pela formação bruta de capital fixo, cresceram 3,5%.

Pelo lado da produção, a agropecuária avançou 2%, beneficiada principalmente pela safra de soja. A indústria cresceu 1%, e os serviços apresentaram expansão de 0,5%.

Os números demonstram que a economia permanece resistente, mesmo com juros altos.

Crescimento também dificulta queda da inflação

O crescimento econômico é positivo quando gera empregos, renda e investimentos. Entretanto, uma atividade muito aquecida pode elevar a procura por produtos e serviços acima da capacidade de oferta.

O Banco Central vem chamando atenção especialmente para a inflação dos serviços, que depende mais das condições internas da economia.

O mercado de trabalho aquecido, o aumento da renda e a expansão do crédito sustentam o consumo. Quando a produtividade não cresce no mesmo ritmo, empresas podem repassar seus custos aos preços.

Por isso, o Banco Central procura reduzir os juros sem provocar uma nova aceleração inflacionária.

Famílias ainda enfrentam crédito caro

A Selic influencia diferentes formas de crédito, mas seus efeitos não chegam imediatamente ao consumidor.

Financiamentos de veículos, empréstimos pessoais, crédito rotativo, cheque especial e parcelamentos continuam apresentando taxas elevadas.

Para as famílias endividadas, a prioridade deve ser evitar modalidades de juros muito altos e buscar a renegociação das dívidas quando possível.

Mesmo uma redução da Selic para 14,25% não deverá provocar uma transformação rápida no custo dos empréstimos. O alívio tende a ocorrer gradualmente e dependerá da continuidade do ciclo de cortes.

Pequenas empresas sentem maior pressão

Os juros elevados também atingem as pequenas e médias empresas.

Negócios que dependem de capital de giro enfrentam custos maiores para comprar mercadorias, manter estoques, pagar fornecedores e financiar equipamentos.

Empresas menores normalmente possuem menos garantias e menor capacidade de negociar condições especiais com os bancos. Isso faz com que a taxa efetivamente cobrada fique muito acima da Selic.

Quando o crédito se torna caro, empresários adiam investimentos, reduzem contratações e evitam ampliar suas operações.

Uma diminuição gradual dos juros poderá ajudar, mas o efeito dependerá também da inflação, da confiança econômica e da situação fiscal do país.

Petróleo e El Niño aumentam incertezas

O cenário internacional continua sendo uma fonte de preocupação.

As oscilações no preço do petróleo podem afetar combustíveis, transporte, fertilizantes, plásticos e diferentes produtos industriais.

O risco de um episódio intenso de El Niño também entrou nas avaliações dos economistas. Alterações no regime de chuvas podem prejudicar determinadas safras, reduzir a oferta de alimentos e aumentar os preços.

Esses fatores são chamados de choques de oferta porque encarecem produtos mesmo sem um aumento excessivo do consumo.

O desafio do Banco Central é avaliar se esses reajustes serão temporários ou se acabarão contaminando outros preços e salários.

Espaço para novos cortes ficou menor

Embora a maioria dos economistas espere uma redução nesta quarta-feira, aumentou a dúvida sobre a continuidade do ciclo.

Entre os participantes de uma pesquisa que responderam sobre a reunião seguinte, marcada para agosto, a maioria ainda projetava outro corte de 0,25 ponto percentual.

A estimativa mediana aponta a Selic em 13,75% no encerramento de 2026 e em 12% ao final de 2027.

Essas projeções podem mudar rapidamente. Uma nova aceleração da inflação, alta do petróleo, deterioração das contas públicas ou desvalorização do real poderia reduzir o espaço para novos cortes.

Por outro lado, uma desaceleração consistente dos preços e da atividade poderia permitir uma redução maior ao longo dos próximos meses.

Política fiscal influencia a decisão

A atuação do governo também interfere no trabalho do Banco Central.

Programas de crédito, benefícios, transferências de renda e outras medidas que ampliam o dinheiro disponível para consumo podem sustentar a economia, mas também pressionar a inflação.

Quando a política fiscal estimula a demanda enquanto o Banco Central procura contê-la, os juros podem permanecer elevados durante mais tempo.

Para reduzir o custo do crédito de forma sustentável, não basta apenas determinar uma Selic menor. É necessário melhorar as expectativas de inflação, fortalecer a confiança nas contas públicas e ampliar a capacidade produtiva do país.

Decisão será conhecida nesta quarta-feira

O Copom conclui a reunião nesta quarta-feira, quando divulgará a nova taxa básica e um comunicado explicando sua avaliação sobre inflação, atividade econômica e riscos futuros.

O texto será tão importante quanto a própria decisão.

Caso o Banco Central sinalize preocupação crescente, o mercado poderá interpretar que o ciclo de cortes está próximo do fim. Se indicar melhora nas perspectivas, poderá reforçar a expectativa de novas reduções.

Para consumidores e empresas, o cenário ainda exige cautela.

A economia brasileira cresceu no começo do ano, mas a inflação acima do limite, os alimentos mais caros e os riscos internacionais impedem uma queda rápida dos juros.

O país chega à decisão dividido entre a necessidade de aliviar o crédito e a obrigação de impedir que o aumento dos preços volte a comprometer o poder de compra da população.


https://www.portalbr.com.br/copom-inicia-reuniao-com-inflacao-acima-do-teto-e-mercado-espera-corte-limitado-dos-juros/
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