Corrupção mantém imagem do Brasil sob desconfiança, mas mercado e instituições mostram cenário mais complexo

Corrupção mantém imagem do Brasil sob desconfiança, mas mercado e instituições mostram cenário mais complexo

País aparece na 107ª posição em ranking internacional de percepção da corrupção; avaliações externas apontam fragilidades na transparência política, mas reconhecem avanços institucionais e a força da economia brasileira

Da Redação Portal BR

BRASÍLIA — A imagem do Brasil no exterior continua marcada pela percepção de corrupção no setor público, pela sucessão de escândalos políticos e pela dificuldade de transformar leis e órgãos de controle em resultados permanentes.

O mais recente Índice de Percepção da Corrupção, divulgado pela Transparência Internacional, atribuiu ao Brasil 35 pontos em uma escala de zero a 100, na qual as maiores pontuações representam níveis mais elevados de integridade. O país permaneceu na 107ª posição entre 182 nações e territórios avaliados.

O resultado representa uma melhora de um ponto em relação ao levantamento anterior, mas mantém o Brasil em uma das posições mais baixas de sua série recente.

A avaliação internacional, entretanto, não é inteiramente negativa. Outros estudos reconhecem que o país possui órgãos de fiscalização, sistemas de transparência, legislação anticorrupção e mecanismos disciplinares mais desenvolvidos do que os existentes em muitas economias emergentes.

O mundo observa, portanto, um Brasil contraditório: uma grande economia, com mercado consumidor expressivo e instituições capazes de investigar desvios, mas que ainda enfrenta dificuldades para prevenir a influência indevida sobre decisões públicas, punir crimes de forma previsível e recuperar a confiança da sociedade.

Ranking mede percepção, não quantidade direta de crimes

O Índice de Percepção da Corrupção não contabiliza diretamente todos os casos ocorridos em um país.

O levantamento reúne avaliações de especialistas, empresários, organismos multilaterais e instituições responsáveis por analisar governança, ambiente de negócios e funcionamento do setor público.

A pontuação indica como a corrupção pública é percebida por esses grupos, considerando fatores como pagamento de propina, desvio de recursos, influência política, transparência, capacidade de fiscalização e responsabilização de autoridades.

Isso significa que uma grande operação policial pode, em um primeiro momento, piorar a imagem do país ao revelar irregularidades. Ao mesmo tempo, a própria investigação pode demonstrar que as instituições estão funcionando.

Por essa razão, a posição brasileira não deve ser interpretada como uma contagem exata de crimes nem como uma prova de que todos os órgãos públicos estejam envolvidos em corrupção.

O ranking mostra que existe uma desconfiança persistente sobre a capacidade do país de impedir abusos de poder e garantir consequências duradouras para os responsáveis.

Brasil está abaixo da média mundial

A média mundial do índice de 2025 caiu para 42 pontos. Mais de dois terços dos países avaliados ficaram abaixo de 50.

Com 35 pontos, o Brasil aparece abaixo dessa média e distante dos países com os melhores resultados, como Dinamarca, Finlândia e Singapura.

A posição brasileira também provoca comparação com outras democracias e economias de renda média que conseguiram desenvolver mecanismos mais consistentes de prevenção, transparência e responsabilização.

A Transparência Internacional afirma que a corrupção nas Américas está associada ao enfraquecimento das instituições, ao crescimento do crime organizado e à perda de confiança da população.

O problema não se limita ao desvio direto de dinheiro. Também envolve favorecimento em contratos públicos, interferência política em órgãos técnicos, financiamento irregular de campanhas, conflito de interesses e utilização da estrutura estatal para beneficiar grupos específicos.

Estado de Direito apresenta resultado intermediário

O Índice de Estado de Direito de 2025, elaborado pelo World Justice Project, oferece uma visão mais detalhada sobre o Brasil.

O país ficou na 78ª posição entre 143 nações na avaliação geral. No fator específico denominado “ausência de corrupção”, apareceu em 76º lugar.

O indicador considera corrupção no Poder Executivo, Legislativo, Judiciário, forças policiais e militares. Também analisa suborno, apropriação indevida de recursos públicos e influência imprópria de interesses privados.

O Brasil apresentou resultado melhor no quesito governo aberto, ocupando a 44ª posição mundial e a sexta colocação entre 32 países da América Latina e do Caribe.

Esse contraste mostra que o país possui sistemas relevantes de divulgação de informações, participação pública e acesso a dados, mas ainda encontra dificuldades para garantir que a transparência resulte em prevenção efetiva dos desvios.

Publicar contratos, agendas e despesas é importante, mas não suficiente quando a fiscalização é lenta, a informação é incompleta ou os processos de responsabilização demoram muitos anos.

Escândalos formaram uma imagem difícil de superar

A reputação internacional do Brasil foi construída ao longo de décadas de denúncias envolvendo governos, partidos políticos, empresas estatais, empreiteiras, bancos, fundos de pensão e agentes privados.

Casos de grande dimensão alcançaram a imprensa mundial e associaram o país a esquemas complexos de pagamento de propina, superfaturamento de contratos e financiamento político.

Operações como Mensalão, Lava Jato e diferentes investigações sobre empresas públicas ampliaram a visibilidade do problema.

Ao mesmo tempo, essas operações também mostraram que autoridades, empresários e políticos poderosos poderiam ser investigados, processados e condenados.

A imagem externa tornou-se ainda mais confusa quando decisões judiciais posteriores anularam processos por questões de competência, procedimentos ilegais ou violações de garantias jurídicas.

Para observadores estrangeiros, o resultado foi uma combinação de duas mensagens: o Brasil demonstrou capacidade de descobrir grandes esquemas, mas não conseguiu manter uma política anticorrupção estável, juridicamente segura e protegida das disputas partidárias.

Corrupção passou a ser usada na disputa política

O combate à corrupção tornou-se um dos principais temas eleitorais brasileiros, mas também passou a ser utilizado como instrumento de confronto entre grupos políticos.

Governos e partidos frequentemente apresentam denúncias contra adversários, enquanto minimizam suspeitas envolvendo aliados.

Essa seletividade reduz a confiança da população e prejudica a imagem internacional do país.

Uma política de integridade considerada confiável precisa funcionar da mesma maneira, independentemente do partido, da ideologia ou da posição ocupada pelo investigado.

Quando investigações parecem avançar ou recuar conforme a conveniência política, cresce a percepção de que as instituições podem estar sendo utilizadas para proteger aliados ou enfraquecer adversários.

O problema não está apenas na existência de acusações, mas na dificuldade de separar investigação técnica, disputa eleitoral e campanha de comunicação.

OCDE reconhece avanços, mas aponta falhas

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico divulgou em março uma avaliação sobre o sistema brasileiro de integridade e combate à corrupção.

O relatório reconhece que o Brasil possui uma estratégia nacional, coordenada pela Controladoria-Geral da União, além de órgãos responsáveis por conflitos de interesse, acesso à informação, disciplina administrativa e fiscalização eleitoral.

O Plano de Integridade e Combate à Corrupção 2025–2027 possui 260 ações distribuídas em áreas como controle dos recursos públicos, relações entre Estado e empresas, transparência, fortalecimento institucional e prevenção de irregularidades.

Segundo a OCDE, o Brasil cumpre 47% dos critérios relacionados à estrutura de sua estratégia e 53% dos critérios de aplicação prática. Os resultados superam as médias de 38% e 32% registradas no conjunto analisado pela organização.

O país também apresenta desempenho elevado no sistema disciplinar aplicável aos servidores federais.

Esses dados mostram que o Brasil não é visto internacionalmente como um país sem regras ou mecanismos de controle.

O principal questionamento está na capacidade de aplicar essas regras de forma uniforme, avaliar seus resultados e impedir que mudanças políticas enfraqueçam as instituições.

Plano ainda não possui metas suficientes

A mesma avaliação da OCDE apontou que o plano brasileiro não possui indicadores de resultado e metas iniciais suficientemente detalhadas para medir seu impacto ao longo do tempo.

A organização também observou a ausência de uma avaliação abrangente e recente dos principais riscos de integridade existentes no Estado.

Sem metas objetivas, o governo pode informar que realizou reuniões, cursos, auditorias e ações administrativas sem demonstrar se essas medidas realmente reduziram fraudes, conflitos de interesse e desperdícios.

A diferença entre criar uma política e obter resultados é central para a avaliação internacional.

Leis bem elaboradas ajudam a reputação do país, mas sua credibilidade depende de fiscalização, orçamento, independência institucional, pessoal qualificado e divulgação transparente dos resultados.

Falta de regulamentação do lobby preocupa

Uma das principais fragilidades apontadas pela OCDE está na relação entre interesses privados e decisões governamentais.

O Brasil publica agendas de determinadas autoridades por meio do sistema e-Agendas, permitindo que a sociedade acompanhe parte das reuniões mantidas por agentes públicos.

Apesar disso, o país ainda não possui uma legislação ampla e específica que defina o lobby, estabeleça obrigações de transparência e determine regras claras para empresas, associações e profissionais que procuram influenciar políticas públicas.

A OCDE atribuiu pontuação zero ao Brasil no indicador relacionado à aplicação prática de salvaguardas específicas para o lobby.

A atividade de representação de interesses não é necessariamente ilegal. Empresas, sindicatos, organizações ambientais, associações profissionais e movimentos sociais têm direito de apresentar propostas ao governo.

O risco surge quando o acesso ocorre sem transparência, permitindo que grupos economicamente poderosos exerçam influência maior que a população comum.

Financiamento político permanece sob atenção

Outro ponto analisado internacionalmente é a relação entre dinheiro e política.

Doações eleitorais, fundos partidários, emendas parlamentares, contratos públicos e nomeações para cargos estratégicos podem criar ambientes favoráveis à troca de favores.

O Brasil desenvolveu mecanismos de prestação de contas eleitoral e fiscalização pelo Tribunal Superior Eleitoral. No entanto, a complexidade das campanhas e a utilização de estruturas informais dificultam o controle completo dos recursos.

A transparência sobre emendas parlamentares também ganhou importância diante do crescimento dos valores controlados pelo Congresso.

Quando a origem, o destino e os critérios de distribuição do dinheiro público não são suficientemente claros, aumenta a desconfiança de organismos internacionais, empresas e cidadãos.

Investidores não enxergam apenas corrupção

Apesar da reputação negativa nos índices de integridade, o Brasil continua entre os maiores destinos de investimentos estrangeiros.

Um relatório sobre o ambiente de investimentos publicado pelo governo dos Estados Unidos, com base em dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, apontou o Brasil como o quinto maior receptor global de investimento estrangeiro direto.

O país atrai capital por possuir uma grande população, mercado consumidor, recursos naturais, produção agrícola, matriz energética diversificada e oportunidades em infraestrutura, tecnologia, indústria e transição ambiental.

Esse comportamento mostra que investidores não avaliam apenas rankings de corrupção.

Eles também consideram tamanho do mercado, rentabilidade, disponibilidade de matérias-primas, mão de obra, logística, estabilidade financeira e perspectivas de crescimento.

A corrupção, entretanto, aumenta os custos de conformidade, auditoria e avaliação de riscos.

Empresas internacionais submetidas a legislações rigorosas em seus países precisam verificar fornecedores, intermediários, parceiros e contratos públicos para evitar envolvimento em pagamentos indevidos.

Reputação afeta empresas honestas

Uma imagem negativa prejudica inclusive organizações brasileiras que operam de maneira regular.

Empresas podem enfrentar exigências adicionais de documentação, auditoria e comprovação da origem dos recursos em operações internacionais.

Bancos estrangeiros podem ampliar procedimentos de controle, enquanto investidores incluem riscos políticos e jurídicos nas decisões sobre projetos no país.

A desconfiança também pode reduzir a concorrência em licitações públicas, pois empresas com políticas rígidas de integridade evitam mercados considerados de alto risco.

Quando concorrentes honestos deixam de participar, o Estado pode receber menos propostas, pagar preços maiores e ficar mais exposto a fornecedores com menor preocupação ética.

Imprensa e sociedade civil influenciam percepção

A liberdade de imprensa, o acesso à informação e a atuação das organizações da sociedade civil possuem papel central na reputação internacional.

Países que perseguem jornalistas ou impedem o acesso a documentos podem aparentar possuir menos escândalos simplesmente porque as irregularidades não são reveladas.

O Brasil possui uma imprensa ativa, organizações independentes e sistemas públicos de informação que permitem a identificação de problemas.

Essa capacidade de fiscalização é um ponto positivo, mas a exposição constante de denúncias também alimenta a percepção de corrupção.

A solução não é reduzir a divulgação, mas garantir que as denúncias sejam investigadas com rapidez, transparência e respeito às garantias legais.

O que poderia melhorar a imagem do Brasil

Especialistas e organismos internacionais apontam medidas capazes de fortalecer a reputação brasileira:

  • regulamentar o lobby e divulgar quem procura influenciar decisões públicas;
  • ampliar a transparência das emendas parlamentares;
  • estabelecer metas mensuráveis para programas anticorrupção;
  • proteger denunciantes, jornalistas e servidores que comunicam irregularidades;
  • garantir autonomia técnica aos órgãos de controle;
  • acelerar processos sem eliminar o direito de defesa;
  • recuperar recursos desviados;
  • integrar bancos de dados de contratos, empresas e beneficiários finais;
  • impedir conflitos de interesse entre cargos públicos e atividades privadas;
  • aplicar as mesmas regras a governos, partidos e grupos políticos diferentes.

A mudança de posição nos rankings não depende de uma única operação ou de um novo pacote de leis.

Ela exige continuidade institucional e demonstração de que as regras permanecem válidas independentemente de quem esteja no poder.

Brasil enfrenta disputa entre potencial e desconfiança

A forma como o mundo vê o Brasil não pode ser resumida por uma única classificação.

O país é percebido como uma grande economia, capaz de atrair investimentos, investigar autoridades e disponibilizar volumes importantes de informações públicas.

Ao mesmo tempo, carrega a reputação de possuir relações pouco transparentes entre política e negócios, processos demorados e resultados instáveis no combate à corrupção.

A melhora de um ponto no índice mais recente representa um sinal positivo, mas ainda insuficiente para alterar a imagem construída durante décadas.

O desafio brasileiro é transformar sistemas, leis e planos em resultados verificáveis.

Quando investigações forem tecnicamente independentes, contratos públicos puderem ser acompanhados em tempo real e as decisões produzirem consequências previsíveis, o país poderá substituir a imagem de escândalos permanentes pela de uma democracia capaz de corrigir seus próprios problemas.


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