Banco Central realiza o terceiro corte consecutivo dos juros; queda do varejo, inflação acima da meta e cenário internacional limitam expectativa de reduções mais intensas
Por Redação Portal BR — 17 de junho de 2026
A economia brasileira encerrou esta quarta-feira, 17 de junho, com uma nova redução da taxa básica de juros, mas ainda cercada por sinais contraditórios. Enquanto o Produto Interno Bruto continua apresentando crescimento, a inflação permanece acima do limite estabelecido pelo governo, o comércio perdeu força e os mercados financeiros foram pressionados pelo cenário internacional.
O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,50% para 14,25% ao ano. Este foi o terceiro corte consecutivo promovido pelo Copom desde o início do atual ciclo de redução dos juros.
Apesar da decisão, o Banco Central não assumiu compromisso com novos cortes nas próximas reuniões. No comunicado, a instituição indicou que a extensão do ciclo dependerá do comportamento da inflação, da atividade econômica, das contas públicas e do ambiente internacional.
Inflação dificulta cortes maiores
A principal preocupação continua sendo a inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, avançou 0,58% em maio e acumulou alta de 4,72% em 12 meses.
O resultado ultrapassa o limite superior de 4,5% do sistema de metas. A meta central estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
O Banco Central também elevou sua projeção de inflação para 2026, de 4,6% para 5,2%. Para o quarto trimestre de 2027, período considerado relevante para a política monetária, a estimativa subiu de 3,5% para 3,7%, ainda acima da meta central.
As instituições financeiras consultadas pelo Banco Central estão ainda mais pessimistas. O Boletim Focus divulgado nesta semana elevou a previsão do IPCA de 2026 para 5,30%, na 14ª revisão consecutiva para cima. A estimativa para a Selic no encerramento do ano passou para 13,75%.
Crédito deverá continuar caro
A redução da Selic representa um primeiro passo para a diminuição do custo do dinheiro, mas os efeitos não chegam imediatamente ao consumidor.
Financiamentos, empréstimos pessoais, cheque especial e cartão de crédito dependem também do risco de inadimplência, dos custos administrativos, da margem dos bancos e das condições de cada cliente. Por isso, uma redução de apenas 0,25 ponto percentual dificilmente produzirá uma queda expressiva das prestações no curto prazo.
Para empresas, especialmente pequenos negócios, os juros elevados continuam dificultando investimentos, aquisição de equipamentos e formação de estoques. Ao mesmo tempo, uma redução acelerada poderia estimular o consumo e aumentar ainda mais a pressão sobre os preços, o que explica a postura cautelosa do Banco Central.
Varejo perde força em abril
Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o volume de vendas do comércio varejista caiu 1,5% em abril, na comparação com março, descontados os efeitos sazonais.
Combustíveis e lubrificantes registraram queda de 6,2%, enquanto equipamentos de informática e comunicação recuaram 4,5%. O comércio de móveis e eletrodomésticos diminuiu 0,8%.
Na comparação com abril de 2025, entretanto, o varejo ainda apresentou crescimento de 1%. No acumulado dos quatro primeiros meses de 2026, a expansão chegou a 2%.
O comportamento mostra que o comércio continua acima do nível registrado no ano passado, mas enfrenta perda de velocidade diante dos juros elevados, do comprometimento da renda das famílias e da alta dos preços.
PIB mantém crescimento
Mesmo com a desaceleração em algumas atividades, a economia brasileira cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com os últimos três meses de 2025. Em relação ao primeiro trimestre do ano anterior, a alta foi de 1,8%. No acumulado de 12 meses, o avanço chegou a 2%.
Os três grandes setores da economia apresentaram crescimento: a agropecuária avançou 2%, a indústria cresceu 1% e os serviços aumentaram 0,5%. O consumo das famílias teve alta de 1%, enquanto os investimentos cresceram 3,5%.
O mercado financeiro projeta atualmente uma expansão de aproximadamente 1,96% para o PIB brasileiro em 2026. A estimativa indica crescimento, mas em ritmo moderado e ainda dependente da evolução dos juros, da inflação e das decisões fiscais do governo.
Dólar sobe e Bolsa fecha em queda
No mercado financeiro, o dólar à vista encerrou esta quarta-feira vendido a aproximadamente R$ 5,11, com alta de 0,41%. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, caiu 0,70%, fechando aos 168.453 pontos.
O movimento ocorreu após o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, manter os juros norte-americanos entre 3,5% e 3,75% ao ano e apresentar projeções que aumentaram a preocupação com uma possível nova elevação ainda em 2026.
Juros mais altos nos Estados Unidos tornam os títulos norte-americanos mais atraentes, podendo reduzir a entrada de recursos em países emergentes, pressionar o dólar e aumentar os custos financeiros para empresas e governos.
Cenário exige cautela
Os indicadores revelam uma economia que ainda cresce, mas enfrenta obstáculos importantes. A inflação resistente limita a redução dos juros, enquanto o crédito caro começa a produzir efeitos mais claros sobre o comércio e o consumo.
Para famílias e empresas, a decisão do Copom representa uma sinalização positiva, porém insuficiente para alterar rapidamente as condições de financiamento. A velocidade das próximas reduções dependerá principalmente da trajetória dos preços, da confiança nas contas públicas e do comportamento da economia mundial.
O Brasil entra no segundo semestre de 2026 com crescimento moderado, mercado de trabalho relativamente resistente e investimentos em expansão, mas também com inflação acima da meta, juros elevados e maior instabilidade externa. O desafio será reduzir o custo do crédito sem permitir uma nova aceleração dos preços.
https://www.portalbr.com.br/copom-reduz-selic-para-1425-mas-inflacao-e-incertezas-mantem-economia-brasileira-sob-pressao/
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