Dívida se aproxima de 80% do PIB, juros permanecem elevados e desconfiança fiscal pressiona o governo

Dívida se aproxima de 80% do PIB, juros permanecem elevados e desconfiança fiscal pressiona o governo

Estoque amplo da dívida entra na casa dos R$ 10 trilhões, enquanto investidores exigem maior remuneração e preferem títulos protegidos pela Selic; medidas fora da meta fiscal ampliam críticas em pleno ano eleitoral

Por Redação Portal BR
Brasília, 15 de junho de 2026

O Brasil chega à metade de 2026 enfrentando uma combinação preocupante de endividamento crescente, juros elevados e perda de confiança na capacidade do governo de equilibrar as contas públicas.

A dívida bruta do governo geral já se aproxima de 80% do Produto Interno Bruto e, em valores nominais, alcança a casa dos R$ 10 trilhões. O resultado amplia os questionamentos sobre a sustentabilidade fiscal do país, especialmente porque uma parcela expressiva do endividamento está vinculada à taxa Selic ou precisa ser refinanciada em períodos relativamente curtos.

O cenário é agravado pela proximidade das eleições de outubro. Economistas e representantes do mercado financeiro avaliam que programas de crédito subsidiado, garantias concedidas por fundos públicos e despesas excluídas das metas fiscais podem estimular o consumo no curto prazo, mas deixam riscos e obrigações para os anos seguintes.

O governo sustenta que as medidas possuem objetivos sociais e econômicos e afirma estar cumprindo as regras vigentes. Críticos, entretanto, argumentam que o cumprimento formal das metas não significa necessariamente uma melhora efetiva das contas públicas.

Dívida ampla e dívida administrada pelo Tesouro são diferentes

Também é necessário distinguir os diferentes conceitos utilizados nas estatísticas públicas.

A Dívida Pública Federal administrada pelo Tesouro Nacional reúne principalmente os títulos emitidos pelo governo federal no mercado interno, além de uma parcela externa. Em março de 2026, esse estoque estava em R$ 8,633 trilhões.

Já a Dívida Bruta do Governo Geral é uma medida mais ampla, calculada pelo Banco Central. Ela inclui obrigações da União, dos estados, dos municípios e do Instituto Nacional do Seguro Social, além de outras operações consideradas pela metodologia oficial.

É nessa medida ampliada que o endividamento público entra na casa dos R$ 10 trilhões.

O valor nominal representa um recorde, mas o indicador mais importante é sua relação com o PIB. Uma dívida pode crescer em reais sem necessariamente piorar quando a economia e a arrecadação avançam no mesmo ritmo. O problema brasileiro é que o endividamento tem aumentado mais rapidamente do que a capacidade de estabilizá-lo por meio de resultados fiscais positivos.

Juros transformam a dívida em uma conta cada vez mais cara

A taxa Selic está em 14,50% ao ano, mesmo após dois cortes de 0,25 ponto percentual realizados pelo Banco Central.

O patamar mantém o Brasil entre os países com os juros reais mais elevados do mundo. Os juros reais correspondem à taxa nominal descontada da inflação esperada e ajudam a demonstrar quanto o investidor recebe efetivamente acima da perda do poder de compra.

Para o governo, juros elevados significam aumento do custo para emitir novos títulos e refinanciar os que estão vencendo. Em março, o custo médio das novas emissões da dívida interna, calculado em 12 meses, chegou a 13,92% ao ano.

Esse custo não fica restrito às contas públicas. Os títulos do governo funcionam como referência para toda a economia. Quando o Tesouro precisa pagar mais para captar recursos, bancos e empresas também enfrentam taxas maiores.

O resultado aparece nos financiamentos, no capital de giro, no crédito imobiliário, nos empréstimos para pequenas empresas e no parcelamento das famílias.

Investidores exigem proteção

Diante da desconfiança fiscal e da incerteza sobre inflação, investidores demonstram menor disposição para adquirir títulos prefixados de longo prazo. Esses papéis estabelecem antecipadamente a remuneração que será paga até o vencimento e podem provocar perdas expressivas caso as expectativas de juros piorem.

Para manter o financiamento, o Tesouro tem recorrido com maior intensidade às Letras Financeiras do Tesouro, papéis cuja rentabilidade acompanha a Selic. Esses títulos protegem o investidor contra novas altas da taxa básica, mas transferem o custo imediatamente para o governo.

Em outras palavras, os compradores continuam presentes, porém exigem segurança e remuneração elevada. Quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser o prêmio necessário para convencê-los a financiar o Estado.

Dívida fica mais exposta à Selic e ao refinanciamento

O próprio governo reconheceu que 62,1% da Dívida Pública Federal estaria sensível aos juros de curto prazo em 2025, maior percentual desde o início da série, em 2008.

O indicador considera tanto os títulos diretamente vinculados à Selic quanto os papéis que vencem em até 12 meses e precisam ser substituídos por novas emissões.

Essa concentração cria um ciclo difícil. A insegurança fiscal pressiona as expectativas de inflação e os juros. A elevação dos juros aumenta o custo da dívida. O custo maior amplia o déficit nominal e faz a dívida crescer, gerando ainda mais desconfiança.

Quase metade do estoque já está diretamente vinculada à taxa básica. Isso faz com que decisões do Banco Central produzam efeitos rápidos sobre a despesa financeira do setor público.

Meta oficial não mostra toda a despesa efetiva

O governo estabeleceu para 2026 uma meta de superávit primário equivalente a 0,25% do PIB. O resultado primário compara receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida.

Na prática, porém, parte considerável das despesas não entra no cálculo utilizado para verificar o cumprimento da meta.

A proposta orçamentária de 2026 excluiu R$ 57,8 bilhões, principalmente relacionados a precatórios, que são dívidas decorrentes de decisões judiciais definitivas.

Quando essas despesas são retiradas do cálculo, o governo consegue apresentar um resultado compatível com o objetivo oficial. Quando todos os desembolsos são considerados, o resultado efetivo permanece deficitário.

O próprio planejamento oficial estima um déficit primário efetivo de aproximadamente 0,4% do PIB em 2026, apesar da meta formal de superávit.

As exclusões possuem respaldo nas regras aprovadas pelo Congresso. Portanto, não se trata automaticamente de uma ilegalidade. A crítica apresentada por economistas é que o mecanismo reduz a transparência sobre o esforço fiscal real e permite que o endividamento continue crescendo mesmo quando a meta é declarada como cumprida.

Programas paralelos ganham força antes das eleições

Outra preocupação envolve as chamadas medidas quase fiscais. São programas que utilizam bancos públicos, fundos garantidores, subsídios ou mecanismos de crédito para estimular determinados setores sem provocar impacto imediato equivalente no resultado primário.

Em junho, por exemplo, o governo lançou uma linha subsidiada para a compra de motocicletas por trabalhadores de aplicativos. Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil serão responsáveis pelos financiamentos, enquanto um fundo público cobrirá parte de eventuais perdas.

A estimativa é de que até R$ 2,5 bilhões possam ser emprestados dentro do programa. Os juros oferecidos aos participantes ficam abaixo da Selic.

A iniciativa pode beneficiar trabalhadores e estimular a indústria, mas economistas observam que o risco não desaparece. Caso ocorram inadimplências, parte da conta poderá ser absorvida pelo fundo garantidor e, indiretamente, pelo setor público.

Analistas interpretam o crescimento de programas de crédito subsidiado e estímulo ao consumo como parte de uma estratégia para movimentar a economia antes das eleições de outubro.

Não há prova de que toda medida social ou linha de crédito criada em 2026 tenha finalidade exclusivamente eleitoral. Contudo, o calendário, a expansão dos programas e a utilização de estruturas fora do orçamento tradicional justificam maior fiscalização e transparência.

Irresponsabilidade fiscal ou política social?

O governo rejeita a acusação de irresponsabilidade e afirma que combina responsabilidade fiscal com inclusão social e apoio aos trabalhadores.

A equipe econômica destaca o bloqueio de despesas, o aumento da arrecadação e o estabelecimento de metas progressivas de superávit como sinais de compromisso com o equilíbrio das contas.

Críticos respondem que o ajuste tem ocorrido principalmente por meio de aumento de receitas, criação de tributos e exclusão de despesas das metas, sem uma revisão estrutural suficientemente profunda dos gastos obrigatórios.

A discussão não deve ser reduzida à escolha entre políticas sociais e responsabilidade fiscal. Programas públicos podem ser necessários, mas precisam possuir fonte de financiamento, avaliação de resultados e estimativa transparente de seus riscos futuros.

Quando benefícios são concedidos sem espaço permanente no orçamento, a conta reaparece na forma de dívida, inflação, impostos ou juros maiores.

Dívida elevada reduz espaço para investimentos

Quanto mais o governo precisa gastar com juros, menor se torna o espaço para áreas como infraestrutura, saúde, educação, saneamento, segurança e ciência.

O endividamento também produz uma disputa pelos recursos disponíveis. Para competir com títulos públicos que pagam juros altos e possuem baixo risco de crédito, empresas precisam oferecer retornos ainda maiores aos investidores.

Isso pode deslocar recursos que seriam utilizados na construção de fábricas, modernização de equipamentos, contratação de trabalhadores e expansão dos pequenos negócios.

O resultado é uma economia na qual aplicar dinheiro em dívida pública pode se tornar mais atraente do que investir na produção.

Ajuste será inevitável após as eleições

Instituições financeiras e economistas avaliam que o próximo governo, independentemente de quem vencer as eleições, terá de realizar um ajuste fiscal mais profundo a partir de 2027.

Estimativas de mercado indicam que o Brasil precisaria alcançar superávit primário superior a 2% do PIB para interromper de maneira consistente o crescimento da dívida. A meta atual, de 0,25%, é considerada insuficiente para estabilizar o indicador no curto prazo.

Entre as medidas discutidas estão a revisão de benefícios tributários, mudanças nas despesas obrigatórias, controle da folha, aperfeiçoamento das regras previdenciárias e avaliação dos programas públicos.

Sem reformas, a dívida poderá continuar subindo, mantendo os juros elevados e limitando o crescimento.

Confiança não pode ser comprada apenas com juros altos

Pagar juros elevados ajuda o Tesouro a encontrar compradores no curto prazo, mas não substitui uma política fiscal confiável. Quando o investidor teme que a dívida continuará crescendo, exige remuneração maior, prefere vencimentos curtos ou busca proteção na Selic e na inflação.

A recuperação da confiança depende de metas que representem o resultado efetivo, redução das exceções, controle das despesas permanentes e transparência sobre programas executados por bancos e fundos públicos.

Em pleno ano eleitoral, o desafio é impedir que decisões voltadas ao resultado das urnas comprometam o equilíbrio econômico dos próximos anos.

O custo da deterioração fiscal não fica restrito ao governo. Ele chega à população por meio de crédito mais caro, inflação, impostos elevados, redução dos investimentos e menor geração de empregos.