Aquecimento do Oceano Pacífico avança rapidamente, e organismos meteorológicos apontam alta probabilidade de formação do fenômeno ainda em 2026; efeitos podem atingir agricultura, energia, cidades e saúde pública
As condições para a formação de um novo episódio de El Niño estão se fortalecendo no Oceano Pacífico Equatorial. Dados divulgados nesta terça-feira, 9 de junho de 2026, pelo Instituto Nacional de Meteorologia mostram que as águas do Pacífico Tropical estão aquecendo rapidamente, aproximando o sistema climático dos critérios utilizados para confirmar o fenômeno.
Na região conhecida como Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas no monitoramento, a anomalia média da temperatura da superfície do mar passou de –0,03 °C em abril para 0,49 °C em maio. Na primeira semana de junho, o valor chegou a aproximadamente 0,7 °C acima da média, indicando condições oceânicas favoráveis ao desenvolvimento do El Niño.
Apesar desse aquecimento, o fenômeno ainda precisa apresentar persistência e uma resposta consistente da atmosfera para ser oficialmente caracterizado. Até o boletim mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, o sistema permanecia tecnicamente em condição neutra, embora muito próximo da transição.
Probabilidade chega a 80% nos próximos meses
A Organização Meteorológica Mundial estima em 80% a probabilidade de formação do El Niño entre junho e agosto de 2026. A possibilidade de continuidade do fenômeno até pelo menos novembro se aproxima ou ultrapassa 90%, segundo os modelos climáticos reunidos pela entidade.
A NOAA apresenta uma projeção semelhante. O centro climático norte-americano calcula 82% de chance de surgimento do El Niño entre maio e julho, com possibilidade de 96% de permanência entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Ainda existe incerteza sobre a intensidade máxima. A Organização Meteorológica Mundial informa que a maior parte dos modelos indica um episódio pelo menos moderado, com possibilidade de alcançar intensidade forte. A NOAA ressalta, porém, que nenhum nível de intensidade individual superava 37% de probabilidade em seu boletim de maio.
Essa diferença reforça que previsões sazonais trabalham com probabilidades. Um El Niño forte aumenta a possibilidade de determinados impactos, mas não determina sozinho onde, quando ou com qual intensidade ocorrerão secas, tempestades e ondas de calor.
O que é o El Niño
O El Niño é a fase quente do fenômeno climático chamado El Niño–Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENOS. Ele ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial central e oriental ficam persistentemente mais quentes do que a média e essa alteração passa a modificar os ventos e a circulação atmosférica.
Em condições normais, os ventos alísios empurram parte das águas superficiais mais aquecidas em direção ao oeste do Pacífico. Quando esses ventos enfraquecem ou mudam de comportamento, o calor permanece ou se desloca para o centro e o leste do oceano.
Essa transformação interfere na formação de nuvens, na distribuição das chuvas e na circulação de massas de ar em diferentes partes do planeta. Os episódios normalmente surgem em intervalos irregulares, duram cerca de nove a 12 meses e costumam atingir sua intensidade máxima entre novembro e fevereiro.
Sul pode enfrentar chuva acima da média
No Brasil, um dos efeitos históricos mais conhecidos do El Niño é o aumento das chuvas na Região Sul, principalmente durante o inverno e a primavera.
O fenômeno pode intensificar o transporte de umidade da Amazônia para o Sul do país, fortalecer correntes de vento em diferentes níveis da atmosfera e favorecer a permanência de frentes frias e sistemas de baixa pressão. Esse conjunto aumenta a possibilidade de tempestades, elevados acumulados de chuva, inundações e períodos prolongados de solo encharcado.
Para o trimestre entre maio e julho de 2026, o INMET já identifica maior probabilidade de chuva acima da média no Rio Grande do Sul. As temperaturas, no curto prazo, devem permanecer mais próximas da média histórica, embora o cenário possa mudar conforme a evolução do Pacífico e do Atlântico.
O histórico das chuvas extremas de abril e maio de 2024 reforça a necessidade de cautela. Naquela ocasião, a fase final de um El Niño forte contribuiu para intensificar o transporte de umidade e a permanência de frentes frias sobre o Rio Grande do Sul. O desastre, entretanto, resultou da combinação do fenômeno com o aquecimento do Atlântico e bloqueios atmosféricos, e não de uma única causa.
Norte e Nordeste podem ter redução das chuvas
Enquanto o Sul tende a apresentar maior volume de precipitação, áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar condições mais secas durante episódios de El Niño.
O fenômeno costuma aumentar a possibilidade de redução das chuvas na faixa norte dessas regiões, afetando rios, reservatórios, abastecimento de água, agricultura e geração de energia. Partes do Centro-Oeste e do Sudeste também podem registrar maior frequência de veranicos, especialmente durante a primavera e o início do verão.
Os efeitos, contudo, não acontecem de maneira uniforme. Uma mesma região pode apresentar excesso de chuva em determinado período e estiagem em outro. A intensidade também depende da temperatura dos oceanos Atlântico e Índico e da atuação de outros sistemas atmosféricos.
Agricultura precisará acompanhar o clima
A agricultura está entre as atividades mais sensíveis ao El Niño.
No Sul, chuva excessiva pode encharcar o solo, favorecer doenças causadas por fungos, prejudicar a aplicação de produtos, atrasar o plantio e dificultar a entrada de máquinas nas lavouras. Culturas de inverno, como trigo e aveia, podem sofrer principalmente durante a floração, o enchimento dos grãos e a maturação.
O excesso de umidade também pode comprometer a qualidade dos grãos e dificultar a colheita. Nas lavouras de verão, a chuva pode melhorar inicialmente a disponibilidade de água, mas acumulados excessivos elevam os riscos de erosão, doenças e perdas produtivas.
No Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste e Sudeste, o problema pode ser o inverso. Menor regularidade das chuvas e períodos prolongados de estiagem podem prejudicar a implantação das lavouras de soja e milho e reduzir a produtividade de cultivos que dependem exclusivamente da chuva.
Produtores, cooperativas e órgãos de assistência técnica deverão acompanhar previsões atualizadas, disponibilidade de água no solo, calendários agrícolas e condições fitossanitárias.
Energia e abastecimento também podem ser afetados
Uma nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e Censipam alerta que eventos extremos associados ao El Niño podem afetar o abastecimento de água, a segurança alimentar, a produção de energia, a mobilidade urbana, a saúde pública e diferentes atividades econômicas.
Em áreas com estiagem, reservatórios de hidrelétricas podem receber menor volume de água, aumentando a pressão sobre o sistema elétrico e a necessidade de utilização de fontes de geração mais caras.
Por outro lado, chuvas intensas podem provocar danos em redes elétricas, estradas, pontes, portos, sistemas de drenagem e serviços de comunicação. Empresas também podem enfrentar interrupções logísticas, atrasos no transporte e aumento dos custos de seguros e manutenção.
Calor merece atenção
O El Niño normalmente contribui para elevar a temperatura média global. A Organização Meteorológica Mundial prevê temperaturas acima da média em grande parte do planeta entre junho e agosto de 2026.
O aquecimento provocado pelo fenômeno ocorre sobre uma atmosfera que já apresenta temperaturas elevadas em razão das mudanças climáticas. Embora não existam evidências conclusivas de que o aquecimento global esteja tornando o El Niño mais frequente, uma atmosfera e oceanos mais quentes podem ampliar alguns de seus efeitos, fornecendo mais calor e umidade para ondas de calor e chuvas extremas.
Temperaturas elevadas podem aumentar os riscos de desidratação, problemas respiratórios e cardiovasculares, especialmente entre idosos, crianças, trabalhadores expostos ao sol e pessoas com doenças preexistentes.
Fenômeno não significa desastre inevitável
A formação do El Niño não significa que todas as regiões enfrentarão eventos extremos, nem permite prever com meses de antecedência onde ocorrerá uma enchente ou uma seca severa.
Previsões climáticas indicam tendências para períodos mais longos e grandes áreas. Já a previsão do tempo consegue detalhar chuvas, tempestades e temperaturas com maior precisão apenas quando os eventos se aproximam.
Cada El Niño possui características próprias. A localização das águas mais aquecidas, a intensidade, a duração e a interação com outros oceanos podem alterar significativamente seus efeitos.
Por essa razão, meteorologistas recomendam acompanhar boletins oficiais e evitar interpretações alarmistas baseadas apenas no nome do fenômeno.
Planejamento deve começar antes dos extremos
A alta probabilidade de formação do El Niño oferece uma oportunidade para governos, empresas e comunidades anteciparem medidas de prevenção.
Municípios podem revisar planos de contingência, limpar redes de drenagem, monitorar encostas, preparar abrigos e atualizar sistemas de alerta. Estados precisam avaliar rodovias, pontes, barragens e estruturas de defesa civil.
No campo, o planejamento envolve análise do solo, escolha de cultivares, manejo de doenças, conservação de água e revisão dos períodos de plantio e colheita.
Empresas de energia, transportes, alimentos, seguros e construção também devem considerar diferentes cenários climáticos em suas decisões.
A previsão não elimina o risco, mas permite reduzir danos. O possível retorno do El Niño em 2026 mostra que a adaptação climática deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a representar uma necessidade econômica, social e de segurança pública.
https://www.portalbr.com.br/el-nino-se-aproxima-e-coloca-o-brasil-em-alerta-para-chuvas-intensas-secas-e-temperaturas-elevadas/
Web3/Blockchain Arweave
