Serviços avançam e safra recorde fortalece economia brasileira, mas juros e inflação mantêm cautela

Serviços avançam e safra recorde fortalece economia brasileira, mas juros e inflação mantêm cautela

Setor de serviços cresceu 1,2% em abril, enquanto produção de grãos pode atingir 350,4 milhões de toneladas; crédito caro e alta internacional do petróleo continuam pressionando empresas e consumidores

Da Redação Portal BR

BRASÍLIA — A economia brasileira recebeu novos sinais positivos nesta quinta-feira, 11 de junho, com a recuperação do setor de serviços e a confirmação de uma safra recorde de grãos. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o volume de serviços cresceu 1,2% em abril, enquanto a produção agrícola estimada para 2026 chegou a 350,4 milhões de toneladas.

Os dois indicadores reforçam a atividade econômica depois do crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto no primeiro trimestre. O cenário, entretanto, permanece marcado por inflação resistente, juros elevados e incertezas internacionais, especialmente em razão da alta do petróleo e dos conflitos no Oriente Médio.

Serviços recuperam queda registrada em março

O setor de serviços avançou 1,2% entre março e abril, recuperando integralmente a retração de 1,1% registrada no mês anterior.

As cinco atividades pesquisadas pelo IBGE apresentaram crescimento. O principal destaque foi o segmento de transportes, que avançou 0,9%, impulsionado pela recuperação do transporte aéreo de passageiros.

Na comparação com abril do ano passado, o volume de serviços aumentou 1,9%, completando 25 meses consecutivos de resultados positivos. No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, o crescimento chegou a 2,2%.

O setor opera atualmente 19,9% acima do nível registrado antes da pandemia, em fevereiro de 2020, e apenas 0,3% abaixo do ponto mais elevado da série histórica, alcançado em outubro de 2025.

Apesar do patamar elevado, o próprio IBGE observa que os resultados recentes ainda não indicam uma trajetória contínua de aceleração. O desempenho mensal tem apresentado oscilações, refletindo diferenças entre atividades, preços e condições de consumo.

Transporte aéreo cresce 7%

O transporte aéreo de passageiros apresentou expansão de 7% em abril, depois de acumular queda de 16,6% entre fevereiro e março.

A recuperação ocorreu em um período de redução dos preços das passagens. De acordo com o IBGE, as tarifas aéreas haviam subido 18,4% durante fevereiro e março, mas recuaram 14,45% em abril.

O movimento favorece diferentes atividades econômicas, como companhias aéreas, aeroportos, hotéis, restaurantes, agências de viagens, locadoras de veículos e transporte por aplicativos.

O transporte total de passageiros, considerando as modalidades acompanhadas pelo levantamento, cresceu 2,6% em abril. O transporte de cargas, entretanto, registrou retração de 0,9%, acumulando dois meses consecutivos de queda.

A diferença entre passageiros e cargas demonstra que a recuperação não ocorre de maneira uniforme. Enquanto turismo e deslocamentos pessoais apresentaram melhora, parte da logística empresarial ainda enfrenta desaceleração.

Turismo volta a crescer

O índice de atividades turísticas avançou 4,1% em abril, recuperando parte da perda acumulada nos dois meses anteriores.

O turismo brasileiro opera 11,2% acima do patamar anterior à pandemia, mas ainda está 2,2% abaixo do recorde alcançado em dezembro de 2024.

Quatorze dos 17 estados e regiões pesquisados apresentaram crescimento. São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco exerceram as maiores contribuições positivas.

O desempenho beneficia uma extensa cadeia formada por hotéis, pousadas, restaurantes, companhias de transporte, comércio, produtores culturais e empresas de entretenimento.

A movimentação relacionada aos grandes eventos esportivos de 2026 também poderá ampliar o consumo em bares, restaurantes, hotéis e estabelecimentos que organizarem transmissões e atividades especiais.

Tecnologia lidera crescimento na comparação anual

Os serviços de informação e comunicação cresceram 6,3% em relação a abril de 2025 e exerceram o principal impacto positivo sobre o resultado anual.

O avanço foi impulsionado por atividades como desenvolvimento e licenciamento de programas, consultoria em tecnologia da informação, tratamento de dados, hospedagem na internet, serviços de aplicações, telecomunicações e portais de conteúdo.

O resultado confirma a expansão da economia digital e a crescente demanda por sistemas de gestão, armazenamento de dados, segurança digital, inteligência artificial e serviços online.

Para pequenas e médias empresas, esse crescimento também representa maior pressão pela modernização. Negócios sem presença digital, sistemas de atendimento eletrônico ou processos automatizados podem perder competitividade em um mercado cada vez mais conectado.

Safra pode alcançar 350,4 milhões de toneladas

No campo, o IBGE elevou para 350,4 milhões de toneladas a estimativa da produção brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2026.

O volume representa crescimento de 1,2%, equivalente a 4,3 milhões de toneladas, em comparação com a produção obtida no ano passado. Em relação à estimativa de abril, houve aumento de 1,7 milhão de toneladas.

Arroz, milho e soja respondem juntos por 92,8% da produção prevista e ocupam 87,6% da área destinada à colheita.

O Centro-Oeste permanece como a principal região produtora, com estimativa de 175,9 milhões de toneladas, equivalente a pouco mais da metade da safra nacional. A Região Sul aparece em seguida, com 92,4 milhões de toneladas.

Soja alcança novo recorde

A produção brasileira de soja foi estimada em 174,6 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica do IBGE.

O resultado representa crescimento de 5,1% em relação às 166,1 milhões de toneladas produzidas em 2025. A área cultivada deverá alcançar 48,3 milhões de hectares, enquanto a produtividade média foi estimada em 3.617 quilos por hectare.

A soja representa quase metade de toda a produção nacional de grãos. O desempenho foi favorecido pela ampliação das áreas cultivadas, pelos investimentos em tecnologia e pelas condições climáticas observadas nas principais regiões produtoras.

Mato Grosso lidera a produção nacional, com estimativa de 50,7 milhões de toneladas. O Paraná deverá produzir 22 milhões de toneladas, e o Rio Grande do Sul, 18,4 milhões.

A recuperação gaúcha é uma das mais expressivas do levantamento. A produção de soja no Estado poderá crescer 34,6% em relação à safra anterior, afetada por dificuldades climáticas.

Produção de alimentos básicos apresenta queda

Apesar do volume recorde da safra, nem todas as culturas apresentam crescimento.

O levantamento aponta redução de 11,4% na produção de arroz, de 5,8% no feijão, de 1,7% no milho e de 7,8% no trigo.

A situação do feijão exige atenção porque a oferta estimada está próxima das necessidades do mercado interno. Segundo o IBGE, o país poderá precisar importar pequenas quantidades para complementar o abastecimento.

As quedas em alimentos consumidos diretamente pelas famílias podem pressionar preços, mesmo em um ano de produção agrícola recorde.

Uma safra maior de soja favorece exportações, transporte, arrecadação e atividade industrial, mas não impede aumentos no custo da alimentação quando produtos como arroz, feijão e trigo apresentam menor oferta.

Capacidade de armazenagem ainda é desafio

A capacidade disponível para armazenamento agrícola chegou a 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, crescimento de 1,1% em relação ao semestre anterior.

O país possuía 9.668 estabelecimentos de armazenagem. Mesmo com a expansão, a capacidade permanece consideravelmente abaixo da produção estimada de 350,4 milhões de toneladas.

Essa diferença não significa que toda a safra precise ser armazenada simultaneamente, pois parte da produção é consumida, processada ou exportada durante a colheita. O contraste, porém, demonstra a necessidade de novos investimentos em silos, armazéns, ferrovias, rodovias e terminais portuários.

A falta de estruturas adequadas pode aumentar perdas, gerar filas, elevar custos logísticos e obrigar produtores a vender em períodos de preços menos favoráveis.

Inflação limita redução dos juros

Embora serviços e agricultura apresentem resultados positivos, a inflação continua sendo o principal desafio para a economia brasileira.

O mercado financeiro elevou de 5,09% para 5,11% a previsão do IPCA para 2026. A estimativa supera o limite de 4,5% estabelecido no sistema de metas.

A meta central definida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

A taxa Selic está atualmente em 14,5% ao ano. Economistas consultados pelo Banco Central aumentaram para 13,5% a projeção dos juros no encerramento de 2026.

O próximo encontro do Comitê de Política Monetária está marcado para os dias 16 e 17 de junho. A persistência da inflação e as pressões internacionais reduziram as expectativas de cortes mais intensos.

Crédito caro afeta empresas e consumidores

Os juros elevados ajudam a reduzir a demanda e controlar os preços, mas também encarecem empréstimos, financiamentos, cartões de crédito e capital de giro.

Para os consumidores, o resultado aparece em prestações mais altas e maior dificuldade para comprar imóveis, automóveis, eletrodomésticos e outros bens de maior valor.

Para as empresas, o crédito caro limita investimentos, aquisição de equipamentos, expansão de unidades e formação de estoques.

Pequenos negócios são especialmente afetados porque dependem mais do sistema bancário e possuem menor capacidade de negociar taxas ou financiar suas atividades com recursos próprios.

Petróleo amplia incerteza internacional

No mercado internacional, o petróleo Brent voltou a ser negociado acima de US$ 93 por barril nesta quinta-feira, em meio à intensificação dos conflitos no Oriente Médio.

A alta pode afetar combustíveis, fertilizantes, transportes, plásticos, produtos químicos e diferentes cadeias de produção.

O Banco Central Europeu aumentou os juros pela primeira vez em quase três anos para enfrentar pressões inflacionárias provocadas principalmente pela energia.

Juros mais altos nas economias desenvolvidas também podem provocar saída de recursos de países emergentes, pressionar o câmbio e aumentar o custo internacional do financiamento.

Economia cresce, mas cenário exige equilíbrio

Os indicadores divulgados nesta quinta-feira mostram que a economia brasileira continua apresentando capacidade de crescimento.

Os serviços recuperaram a perda de março, o turismo voltou a avançar, a tecnologia mantém expansão e o agronegócio caminha para uma produção histórica.

Ao mesmo tempo, inflação, juros elevados, menor oferta de alguns alimentos e instabilidade internacional impedem uma leitura excessivamente otimista.

O desafio será transformar a expansão dos serviços e da agricultura em investimentos produtivos, empregos, aumento da renda e melhoria da infraestrutura.

A consolidação do crescimento dependerá do controle dos preços, da redução responsável dos juros, da expansão do crédito e da capacidade do país de diminuir os efeitos das tensões internacionais sobre combustíveis e custos de produção.


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