Especialistas defendem mais arborização, redução de áreas asfaltadas e recuperação de rios urbanos. Debate ganha urgência diante da previsão de temperaturas acima da média e dos impactos crescentes das mudanças climáticas no Brasil.
Por Redação Portal BR
13 de junho de 2026
As florestas, os rios e as áreas verdes precisam deixar de ser tratados como elementos separados das cidades e passar a ocupar posição central no planejamento urbano brasileiro. A avaliação é de pesquisadores reunidos no Seminário Internacional Transmutar, realizado pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais.
O debate ganhou destaque neste sábado, 13 de junho, ao propor uma mudança profunda na forma como os centros urbanos são organizados. Em vez de cidades dominadas por asfalto, concreto e veículos, especialistas defendem bairros mais arborizados, edifícios integrados à vegetação e sistemas eficientes de transporte coletivo.
As chamadas “fitópolis”
Um dos conceitos apresentados no encontro foi o das fitópolis, cidades planejadas a partir de princípios observados na organização das plantas e dos ecossistemas.
A proposta foi defendida pelo pesquisador italiano Stefano Mancuso, fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença. Segundo ele, as cidades devem funcionar como organismos capazes de se adaptar às mudanças ambientais, reduzir temperaturas e melhorar a qualidade de vida.
Mancuso sustenta que a substituição de aproximadamente 20% das superfícies asfaltadas por áreas arborizadas já produziria benefícios importantes. Em um modelo urbano considerado ideal pelo pesquisador, a cobertura vegetal chegaria a pelo menos 60%, acompanhada por transporte público eficiente e pela redução progressiva dos veículos movidos a combustíveis fósseis.
Árvores e outras formas de vegetação ajudam a diminuir a temperatura das ruas, oferecem sombra, absorvem parte da água das chuvas e armazenam carbono. Também podem contribuir para a melhoria da qualidade do ar e para a formação de corredores ecológicos destinados à fauna urbana.
Conhecimento antigo da Amazônia
O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves, professor da Universidade de São Paulo, lembrou que a integração entre áreas habitadas e florestas não é uma ideia recente.
Pesquisas arqueológicas identificaram formas de urbanização indígena desenvolvidas há cerca de 2,5 mil anos no atual território do Acre. Em períodos posteriores, sistemas semelhantes se espalharam por diferentes regiões da Amazônia.
Esses assentamentos mantinham áreas de moradia, cultivo e circulação interligadas a bosques e outros espaços naturais. Ao contrário de muitos centros urbanos modernos, não procuravam expulsar completamente a natureza do território ocupado.
Para o pesquisador, essas experiências podem ajudar o Brasil a pensar em “cidades-jardins”, nas quais florestas, rios e população façam parte de um mesmo planejamento. Ele também chama atenção para a desigualdade ambiental: bairros de maior renda costumam apresentar mais árvores e áreas verdes, enquanto comunidades vulneráveis enfrentam maior exposição ao calor e à ausência de infraestrutura.
Calor aumenta pressão sobre as cidades
A discussão ocorre em um mês no qual as temperaturas devem permanecer acima da média histórica em grande parte do país. A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia indica elevação térmica em todas as regiões durante junho, com aumentos que podem chegar a 1,5°C acima da média em determinadas áreas do Sudeste, Sul e Centro-Oeste.
Ondas de calor, chuvas intensas, enchentes e períodos prolongados de seca ampliam a pressão sobre sistemas urbanos de drenagem, abastecimento de água, energia, saúde e transporte.
O próprio Ministério do Meio Ambiente reconhece que secas na Amazônia, aumento da aridez no Nordeste, ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste e inundações como as registradas no Rio Grande do Sul exigem novas políticas de prevenção e adaptação.
O Programa Cidades Verdes Resilientes, coordenado pelo governo federal, pretende aproximar desenvolvimento urbano sustentável, adaptação climática e justiça socioambiental. A implementação, entretanto, depende da adesão dos municípios, da disponibilidade de recursos e da continuidade dos projetos.
Desmatamento diminui, mas pressão continua
O Brasil encerrou 2025 com redução de 20,6% na área de vegetação nativa desmatada em comparação com o ano anterior. Foi a primeira vez desde 2019 que o total anual ficou abaixo de 1 milhão de hectares.
Apesar da melhora, o país ainda perdeu 984.794 hectares de vegetação nativa durante o ano — média aproximada de 2.698 hectares por dia. Amazônia e Cerrado concentraram mais de 84% de toda a área desmatada, e a expansão agropecuária permaneceu como o principal vetor de pressão.
Os números mostram que a proteção ambiental precisa ocorrer simultaneamente dentro e fora dos centros urbanos. Preservar grandes biomas é fundamental, mas ampliar a arborização das cidades, recuperar margens de rios, proteger nascentes e reduzir a impermeabilização do solo também são medidas essenciais.
Planejamento precisa sair do papel
Transformar cidades brasileiras em espaços mais verdes exigirá ações permanentes, e não apenas campanhas de plantio de árvores. Especialistas apontam a necessidade de inventários da arborização, escolha adequada das espécies, manutenção das mudas, criação de parques, recuperação de cursos d’água e revisão das regras de ocupação do solo.
O Instituto Inhotim é citado como exemplo de recuperação ambiental. Localizado em uma área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, o espaço já regenerou 75 hectares de floresta nativa e conserva mais de mil espécies de plantas.
O desafio agora é transportar essas experiências para as cidades, especialmente para as regiões periféricas. Diante do aumento das temperaturas e da frequência de eventos extremos, a arborização urbana deixa de ser apenas uma questão estética e passa a ser considerada infraestrutura essencial para a saúde, a segurança e a qualidade de vida da população.
https://www.portalbr.com.br/cidades-precisam-trazer-a-floresta-de-volta-para-enfrentar-calor-e-eventos-extremos-alertam-pesquisadores/
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